Questão de vontade, não de idade.

Para ouvir enquanto lê o texto:

Passei cerca de trinta anos da minha vida envelhecendo. Parecia simplesmente o certo a fazer. Ser uma pessoa madura. Adotar o comportamento adequado. Arcar com responsabilidades. Ter opinião. Lidar com problemas cada vez mais difíceis. Conformar-me com o que não posso fazer. Gerenciar minha própria vida. Ser um exemplo de moral. Ter um propósito na vida. Desconfiar das pessoas. Conquistar a independência. Abraçar a complexidade do meu ser e desistir de entender a mim mesma.

Um dia resolvi que não queria mais envelhecer. Descobri que “o certo a fazer” é uma questão de ponto de vista. Percebi que excesso de maturidade significa que você passou do ponto (e o próximo passo é deteriorar). Observei que quem dita qual é o comportamento adequado é geralmente cheio de inadequações. Concluí que ser responsável não é um peso a carregar, mas sim a chave da minha liberdade. Vi que é saudável mudar de opinião de vez em quando, além de ser indispensável respeitar as opiniões diferentes das minhas. Notei que os problemas são do tamanho que eu dou a eles. Perguntei-me: “mas o que é que eu não posso fazer?”. Constatei que gerenciar é algo muito burocrático para definir a minha vida – prefiro fazer arte com ela. Entendi que vale mais a pena inspirar atitudes positivas do que seguir cegamente um conjunto de regras que nem sempre materializa o bem. Decidi ter vários propósitos na vida, mas não me apegar a eles – se algo falhar, o plano B é “continue a nadar, continue a nadar”. Aprendi a importância de cultivar a fé. Conquistei minha independência e, então, dei um passo atrás, para aprender a dizer: “preciso de você”. Resolvi simplificar e, num processo contínuo de autoconhecimento, amar a mim mesma e a quem mais eu conseguir.

De repente, não só parei de envelhecer, mas comecei a ficar mais jovem! Voltei a brincar, a acreditar, a confiar, a arriscar. Estou aprendendo ainda a saltar sem medo (não se abandonam as rugas e cicatrizes da alma sem algum esforço). Estou mais bonita. Sinto-me mais bem disposta. Tenho feito novas amizades e me divertido com as antigas. A dor nas costas diminuiu. E estou enxergando melhor! Mas não com os olhos, claro.

Não frequento muitas festas – escolho somente as melhores. Mas quando compareço, sou a primeira a chegar e a última a sair! Quando eu era velha, costumava pensar: “que bom seria se eu pudesse ter a disposição da juventude com o discernimento que tenho hoje…” E não é que é possível?

Algumas roupas não me servem mais: ficaram muito grandes ou muito sérias. Também existem atitudes que já não me cabem: rabugices, pressa constante, resmungos e lamentos, guardar mágoas e ressentimentos, valorizar as dores e doenças, falar demais, achar que sei mais do que os outros, manter hábitos ruins só porque é difícil mudar. Confesso que foi mais fácil me livrar das roupas que não serviam. Mas estou trabalhando nas atitudes.

Há quem desaprove meu rejuvenescimento. Nem todo mundo consegue abrir mão do cinismo e da descrença. A muitos falta ânimo para abandonar o pessimismo. Alguns simplesmente acham ridículo. Pensam que não tem cabimento uma senhora casada de 32 anos se comportar dessa maneira. Que é um absurdo andar assim, como se fosse uma menina. Não me importo. Fico com a opinião dos jovens, como meu marido, a cada dia mais menino. E minha jovem amiga de 99 anos de idade, que faz piada e ri como criança. E, ainda, minha amiga de 3 anos de idade, que me faz abraçar desconhecidos.

Além disso, conservei do meu tempo de envelhecimento uma série de lições. Uma delas é que eu não posso agradar a todos. Então, só por hoje, escolho agradar a mim mesma.

oki

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6 comentários em “Questão de vontade, não de idade.

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