Qualquer dia

 

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Você conhece a história do maior romancista de todos os tempos que jamais publicou um livro? É um homem que tem o domínio pleno de todas as nuances do idioma. Usa sintaxes, morfologia e semântica com a mesma maestria de um grande pintor renascentista com os pincéis. Conhece como ninguém as idiossincrasias humanas, sendo capaz de criar as personagens mais realistas e fantásticas. Sua imaginação desenvolve enredos detalhados com grande facilidade.

Ele simplesmente sabe que seu romance será o mais aclamado da história. Graças a essa primorosa obra, ele será lançado ao panteão dos grandes nomes da literatura mundial. Será comparado a Dante, Dostoiévski, Goethe, Tolstói, Camus.

Com a testa encostada num azulejo, sentindo a água quente do chuveiro escorrer pelas costas, o grande gênio visualiza a recepção apoteótica de sua obra prima. Um pensamento mórbido cruza-lhe a mente: e se o reconhecimento de seu talento for póstumo? A ideia soa tão injusta e dolorosa que ele vai às lágrimas. Logo, se recompõe e termina de se ensaboar. Passa os dias seguintes com o semblante de quem superou uma grande perda – a sua própria morte imaginária – com a força de um herói. Conforma-se com a glória de seu nome sendo recitado pelas gerações futuras.

Quando senta diante da tela em branco do computador, não sabe por onde começar. É grande a responsabilidade que carrega e a ansiedade toma conta de seus pensamentos. Escreve um parágrafo e o relê. Fecha o documento sem salvar. Não era impactante o suficiente. A grande obra precisa iniciar com um argumento ao mesmo tempo simples e extraordinário. Deverá surpreender de imediato, pela forma e pelo conteúdo, dando ao leitor a certeza de que as páginas seguintes lhe reservam uma experiência única e transcendental.

O mestre das palavras se distrai, cogitando se não deveria investir mais na sua formação acadêmica antes que a fantástica obra seja publicada. Ele é formado em Letras, mas um Mestrado cairia bem no currículo quando saísse o livro. Melhor: um Doutorado. É uma pena que ele só ganhará o prêmio Nobel da Literatura após o lançamento, de modo que as primeiras edições não contarão com mais esse título na orelha do livro.

Os anos se passam e o maior escritor do mundo mira com desdém as publicações de conhecidos seus. Textos imaturos e superficiais. Ainda bem que ele está tomando o tempo necessário para a construção da obra magnífica. Todos sabem que grandes romances levam muitos anos para nascer. Quiçá, uma vida inteira!

O incrível romancista dedica noites insones a lucubrar sobre o epíteto que sua obra receberá. A de Dante nasceu apenas Comédia, sendo imortalizada como Divina por adição do adjetivo que Boccaccio, fascinado diante de sua grandeza, escolheu para qualificá-la. Como os críticos designarão seu livro? Perfeito? Iluminado? Sublime? Ele gosta particularmente de sublime.

Ninguém conhece a dimensão de suas ambições. Faz parte de seus anseios secretos observar a surpresa nos rostos incrédulos perante a revelação de seu insuperável talento. Alguns poucos amigos já chegaram a ler esboços que escrevera na juventude, e o incentivam a divulgar seu trabalho. Mas ele sabe que tornar público um texto medíocre equivaleria a entregar-se docilmente a seus algozes. Os críticos jamais perdoariam uma obra de saída que fosse menos do que ele era capaz de entregar. Estaria para sempre estigmatizado.

Numa manhã ensolarada de domingo, ele recebe uma visita. Era certo que um dia chegaria, mas, ainda assim, é inesperada. Não veio vestida num manto negro, carregando uma foice. Surgiu na forma de um aperto profundo no peito, acompanhado de falta de ar e uma dor diferente que travou-lhe a mandíbula. Tentou gritar, mas a voz não saiu. Quando pensou em telefonar para a emergência, a vertigem o derrubou.

Caído de bruços no tapete da sala, tentou negociar. Precisava só de mais alguns anos. Se não fosse possível, veria o que conseguia fazer com poucos meses. Abandonaria o trabalho e dedicar-se-ia exclusivamente à execução da obra que, tinha certeza, estava destinado a criar. Semanas, talvez? Pelo menos alguns dias… A ideia já estava pronta, precisava apenas perpetuar-se em papel. É claro que faltaria tempo para os ajustes, mas ao menos a humanidade não seria privada de seu legado. Um minuto, era tudo que pedia, para telefonar a alguém e dizer umas últimas palavras pelas quais seria lembrado.

Coberto de suor, tomado pela dor e pelo cansaço, o homem começa a sucumbir. As palavras “covardia” e “orgulho” ressoam em sua mente já confusa. Num último esforço de autoconvencimento, sugere a si mesmo que a ausência de tentativas ao menos o livrou do risco do fracasso. Na despedida final, seus entes queridos poderiam laurear-lhe o mérito de não ter feito mal a ninguém. Já é alguma coisa, não? Num suspiro profundo, entrega-se.

Desperta na cama, suado e com a frequência cardíaca acelerada. Olha em volta e reconhece o quarto. Tudo no lugar. Foi só um sonho, felizmente. Ele tem a vida toda pela frente. Há tempo de sobra para elaborar com calma o grande projeto de sua vida. O pesadelo o deixou um pouco abalado, parece prudente dedicar o dia ao descanso. Talvez seja hora de agendar uma consulta com o médico, fazer uns exames. A qualquer momento, certamente, ele estará preparado para dar início ao trabalho. Enquanto isso, lerá alguns livros recém-adquiridos e os criticará com a certeza de que teria feito muito melhor que seus autores. Qualquer dia, todos verão.

Qualquer dia.

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