Indígena do Alto Xingu defende dissertação de mestrado


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Makaulaka Mehináku Awetí tem 34 anos e seu povo Mehináku vive no Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso. Em maio desse ano, Mekalauka defendeu sua tese de mestrado na UnB (Universidade de Brasília), sobre a estrutura linguística do idioma que leva o mesmo nome de sua etnia. Seu trabalho aprofunda a descrição gramatical da língua, que também está presente na região Norte do Brasil e em países como Bolívia, Peru e Venezuela.

O interesse de  Makaulaka pela escrita do “povo branco” começou na adolescência, quando teve contato com outros índios que sabiam ler e escrever em português. Na falta de lápis e papel, “recolhia pilhas velhas, tirava-lhes o toco preto e ia apontando para colocar na ponta de um pauzinho para ficar igual a um lápis”, ele conta. Usava esse instrumento para reproduzir em madeira as palavras que encontrava em embalagens usadas.

Aos 15 anos, soube de um curso de português que iria acontecer em um povoado. Como estava em período de reclusão, prática recorrente entre indígenas na adolescência, o pai o proibiu de ir à escola. Makaulaka decidiu então fugir da aldeia para perseguir seu sonho. Depois do curso, retornou ao convívio da família. Com a anuência dos pais, passou a frequentar a escola e ingressou na graduação em Ciências Sociais na Universidade Estadual do Mato Grosso.

“Lembrar essa história é viajar no tempo, recordar todo sofrimento, hoje superado, a humilhação que me fez aprender a ser humilde e respeitar os outros; aprender a lidar com atitudes ruins com bons argumentos. É o que me deu mais motivo de seguir em frente sempre com inteligência para não agredir as pessoas com minhas palavras grosseiras”, escreve Makaulaka na introdução do trabalho.

“Pensei em voltar para minha vida de tempos atrás, de viver a vida inteiramente de meu povo, viver isolado do mundo branco, mas não será mais possível, não posso desperdiçar tudo que conquistei na vida, apoio, confiança e respeito, que significa o reconhecimento por parte daqueles que conhecem quem sou eu”, completa Makaulaka, hoje professor em sua aldeia no Alto Xingu.

No dia de defender sua pesquisa, Makaulaka acordou antes das 6 da manhã. Ao lado da mulher e dos filhos, pintou o corpo de urucum e jenipapo, colocou os ornamentos usados em celebrações especiais indígenas e se dirigiu à UnB para concluir uma das etapas mais importantes da sua vida.

A conquista de Makaulaka vai além do benefício (possibilitado pelo sistema de cotas) de promover a diversidade no curso superior – é também um avanço histórico. “As línguas indígenas, de modo geral, estão sob análise dos linguistas não indígenas. Ser pesquisador da minha língua coloca o índio como protagonista de sua história”, define o agora mestre.

Na opinião da orientadora do projeto de Makaulaka e representante do Laboratório de Línguas e Literaturas Indígenas (Lali/IL) da UnB, Ana Suelly Arruda Câmara Cabral, a importância de aproximar os indígenas da universidade supera o rico intercâmbio de culturas e de pontos de vista. “Eles se encantam ao entender com o olhar de linguista, as estruturas de sua língua e as funções que cada elemento que a constitui tem ao expressar sentimentos, emoções, pensamento e cultura de um modo em geral”, explica.

Fundado em 1999, o Lali esperou 10 anos até a primeira defesa de dissertação de mestrado de um indígena. Em 2009, Edílson Baniwa defendeu projeto sobre o idioma nhegatu, do povo baniwa, que vive no Alto Solimões, no Amazonas. Desde então, há uma seleção especial, na qual os índios não precisam fazer provas de inglês, pois o português já é a segunda língua deles.

Fontes:

http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=8600

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2014/06/04/interna_cidadesdf,430797/indio-supera-adversidades-e-preconceitos-e-conclui-mestrado-na-unb.shtml

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