Projeto 365 dias: dia 07 – Solar do Barão ou “De traidor a herói da pátria – Resgate da memória do Barão do Serro Azul”

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Solar do Barão – Fotografia do site da Fundação Cultural de Curitiba

O texto é longo, mas justifico-me por tratar-se de uma história apaixonante. Aliás, como seria mais fácil – ao menos para mim – aprender sobre a História (com letra maiúscula) se, em vez de apresentada como uma série de datas e nomes de generais, ela fosse sempre contada assim: como a história da vida de pessoas de carne e osso, das escolhas que fizeram e as consequências que sofreram.

Hoje visitei um lugar ao qual não ia há muitos anos: o Solar do Barão, localizado na Rua Presidente Cavalcanti, no Centro de Curitiba. A visita já vale pelo simples fato de estar entre as paredes que abrigaram um grande homem, que teve participação relevantíssima na história do Paraná e de sua capital, e – por que não? – do próprio país. Além disso, o local abriga um complexo cultural que reúne diversas unidades relacionadas às artes gráficas: o Museu da Fotografia, o Museu da Gravura, o Museu do Cartaz e a Gibiteca. Várias exposições interessantes acontecem por lá.

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Gibiteca de Curitiba.
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Exposição no Museu da Gravura de Curitiba, um dos espaços culturais abrigados no Solar do Barão.

Não é um castelo medieval na Europa, mas a história que o Solar retrata tem algo de muito especial: ela é nossa. Vamos viajar ao passado então? Não sou historiadora, e sei que a História comporta diferentes visões para os mesmos fatos. Convido quem desejar a contribuir com outros fatos e pontos de vista e, especialmente, a me alertar caso haja algum equívoco no texto a seguir.

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Detalhe do Solar do Barão.

O Solar começou a ser construído em 1880, para servir de residência ao parnanguara Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul. O projeto do palacete de três pavimentos é de autoria dos construtores italianos Ângelo Vendramin e Batista Casagrande, que idealizaram o edifício como um exemplar do ecletismo, estilo que mistura tendências arquitetônicas de períodos diversos.

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À direita, o Solar do Barão, construído em estilo eclético em 1880. À esquerda, o Solar da Baronesa, construído em 1894, seguindo o padrão estético do prédio principal.

A imponência da construção expressava o status social do Barão, importante empresário, político e intelectual da cidade. Fundador do engenho de erva-mate Tibagi, no bairro Batel, investiu também no setor madeireiro e foi um dos fundadores da Associação Comercial do Paraná. Visionário, absorvia as inovações tecnológicas que surgiam e não eram assimiladas pelas demais empresas ervateiras. Foi presidente e vice-presidente da Câmara Municipal de Curitiba, deputado provincial, suplente de juiz em Antonina, assessor do presidente Taunay. Dentre outras contribuições sociais da época, colaborou com as obras do Passeio Público, fundou a Imprensa Paranaense e foi fundador benemérito e primeiro presidente do Clube Curitibano. Integrou a comissão que recepcionou D. Pedro II, em visita a Curitiba, em 1880, ano em que recebeu o título de Barão do Serro Azul. Abolicionista convicto, comandou a campanha de arrecadação de fundos para a abolição da escravatura no município. São tão numerosos os seus feitos na política e na atividade empresarial que é preciso esclarecer que os aqui elencados representam apenas uma modesta parte de sua biografia. Aos 26 anos de idade, casou-se com sua prima Maria José Correia, conhecida como Nhá Coca, mulher culta e inteligente com quem teve três filhos: Efigênia, Maria Clara e Ildefonso.

Entre os anos de 1893 e 1895, o sul do Brasil serviu de cenário para os violentos combates da Revolução Federalista, iniciada no Rio Grande do Sul, travada entre os federalistas (maragatos) e os republicanos (chimangos ou pica-paus). Resumidamente, os federalistas, que queriam uma maior autonomia do Rio Grande do Sul, defendiam a criação de um regime parlamentarista, nos moldes do que existiu no Segundo Reinado, iniciado com a declaração de maioridade de Pedro de Alcântara. Os republicanos, por outro lado, defendiam um presidencialismo forte e centralizador, no estilo do Marechal Floriano Peixoto, que assumiu o governo após a renúncia do primeiro presidente da República, Marechal Deodoro da Fonseca.

Extrapolando as fronteiras gaúchas e avançando por Santa Catarina, em janeiro de 1984, os revoltosos decidiram invadir o Paraná, levantando a bandeira pela derrubada do presidente Marechal Floriano do poder. Pelo caminho, contaram com a adesão de parte da população local, especialmente os trabalhadores rurais, insatisfeitos com as condições de trabalho no campo.

Ao saber da proximidade dos maragatos, o então presidente do estado, Xavier da Silva, alegando problemas de saúde, pediu licença do cargo. Vicente Machado, o vice em exercício, transferiu a capital para Castro, sua cidade natal, e seguiu para lá imediatamente. Por fim, o general Pego, comandante militar da cidade, fugiu abandonando trens carregados de material bélico.

Abandonada por suas autoridades e pelas tropas legalistas, Curitiba passou a ser governada pelo Barão do Serro Azul, que assumiu o controle de uma Junta Governativa com o objetivo de preservar a ordem e garantir a integridade das famílias que ficaram na cidade. A passagem dos maragatos pela Lapa havia deixado, ao longo de 26 dias de sangrenta batalha, um saldo muito grande de mortos, e o Barão não queria que a tragédia se repetisse na capital paranaense.

Convocado pelos cidadãos, coube ao Barão fazer um acordo com os revolucionários para proteger a população de violências, saques e estupros. A Junta Governativa de Curitiba transformou-se em “Comissão para Lançamento do Empréstimo de Guerra”, arrecadando fundos para negociar a paz com Gumercindo Saraiva, líder dos maragatos.

Em maio de 1894, o Barão escreveria a seu irmão: “tenho consciência de que tudo quanto pratiquei, logo que o nosso Estado foi invadido pelas forças revolucionárias, somente obedeceu aos mais nobres e puros sentimentos. (…) Os tempos são de provações e eu a elas me subordino pacientemente”. Sua posição pacificadora, no entanto, rendeu-lhe o título de traidor entre os republicanos.

Quando os maragatos perderam a batalha, teve início a perseguição aos que contribuíram com a Revolução. Os quartéis, teatros e até escolas de Curitiba ficaram lotadas de presos, e, apesar da condenação pública, várias pessoas foram fuziladas.

O Barão e cinco companheiros foram presos: Prisciliano Correia, José Lourenço Schleder, José Joaquim Ferreira de Moura, Rodrigo de Matos Guedes e Balbino de Mendonça. Após alguns dias, em 20 de maio, às nove da noite, esses prisioneiros foram conduzidos à Estação Ferroviária, sob a alegação de que seriam levados ao Rio de Janeiro para seu julgamento pelo Conselho Militar. Infelizmente, não era esse o destino que seus algozes de fato lhes reservavam.

O trem parou no quilômetro 65, no Pico do Diabo, e os homens passaram a ser arrastados para fora. Mato Guedes atirou-se pela janela do trem, mas recebeu uma descarga da fuzilaria e rolou pelo precipício. Balbino de Mendonça agarrau-se ao vagão e teve os braços quebrados a coronhadas, sendo abatido a tiros de revólver. Um tiro na coxa da perna direita colocou o Barão de joelhos e ele propôs dividir sua fortuna com os oficiais da escolta se fosse poupado, mas foi fuzilado a seguir, junto com os companheiros restantes.

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Quadro histórico sobre a Revolução Federalista, concebido por Ângelo Agostini, destacando o fuzilamento do Barão do Serro Azul. Reprodução da Revista Carioca Dom Quixote, publicada em 1895. Coleção: Newton Carneiro.

Passaram-se alguns dias até que a notícia da execução chegasse a Curitiba. Conforme consta da emocionante carta da Baronesa do Serro Azul, enviada ao Barão de Ladário (cuja leitura na íntegra eu recomendo vivamente):

“Às esposas aflitas que procuravam o comandante militar para ouvir o desmentido da nova inverossímil, afirmava o general Everton Quadros, com sorrisos nos lábios e com mostras de sinceridade através das quais era impossível perceber um resquício de remorso, afirmava sob sua palavra de honra que os presos haviam seguido para o Rio. E quando a alma da população inteira foi se enchendo de opressão horrível ante as versões que corriam como um clamor de dies irae, deixando por sobre a Capital do Paraná a sombra pavorosa da agonia e do luto – o general, cuja espada viera restaurar a Lei, mandava que as bandas militares, com o som da música festiva, dispersassem os agouros que suspendiam a vida de um povo, como quem a gritos estridentes espanta uma corvada que fareja matanças! Ao mesmo tempo, senhor, fazia-se declarar às famílias das vítimas que não podiam cerrar as portas nem dar outras demonstrações de luto…”. 

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Trecho da carta da Baronesa do Serro Azul ao Barão de Ladário.

O coronel Ordine, junto com seis homens, foi ao local cinco dias após o fuzilamento, a fim de enterrar os corpos abandonados pela escolta, os quais encontrou mexidos, sem joias e alguns, inclusive, sem sapatos. Feito o reconhecimento dos mortos, os corpos do Barão e de seu amigo Prisciliano Corrêa foram enterrados à direita dos trilhos do trem, com a intenção de futuramente serem levados a Curitiba para um sepultamento mais respeitoso.

Um ano depois, a pedido da Baronesa, o coronel Ordine foi tratar com o comando do distrito militar e da polícia do estado a fim de trazer o corpo do Barão para ser sepultado em Curitiba. Como não havia registro oficial do fuzilamento, o pedido não foi recusado. Contudo, o diretor da Estrada de Ferro, Gastão Serjat, negou-se a liberar os cadáveres, que se encontravam em terras de sua propriedade.

Ordine contratou então o caboclo Joaquim Franco, conhecedor da Serra do Mar, para abrir uma picada em meio à mata fechada para conduzir a expedição clandestina que faria o resgate dos corpos. O caboclo morreu, picado por uma cobra, poucos quilômetros antes de terminar o serviço, que foi concluído por seus filhos.

Embora ameaçados pelos perigos da mata e correndo o risco de represálisas dos políticos de então, dez homens fizeram parte da corajosa expedição, que levou o nome de Amizade. A expedição partiu dia 2 de maio de 1895 e voltou com o corpo do Barão no dia 6. Prisci­liano foi resgatado depois porque, segundo documento da época, era muito grande. Os caixões haviam sido escondidos por Ordine numa Serraria, e de lá vieram para Curitiba com os dois corpos, ocultos em meio a 400 filetes de madeira com capim por cima, sendo levados ao Cemitério Municipal. A viúva finalmente conseguiu dar ao Barão o sepultamento digno que desejava.

Em 1894, para garantir os rendimentos da Baronesa, foi construída uma casa menor, ao lado do Solar do Barão, no terreno em que ficava o jardim, para servir de residência a ela e seus filhos. O Solar da Baronesa seguiu os mesmos princípios arquitetônicos do prédio principal, que passou a ser alugado. Entre 25/10/1902 e 06/1909, sediou a Loja Maçônica Grande Oriente do Paraná.

Em 1912, os imóveis foram incorporados à Fazenda Nacional e ocupados pelo Exército, passando a abrigar o quartel até 1973. Nesse ano, o Município negociou com o exército uma permuta desses bens com outro localizado no bairro Pinheirinho, para onde foi transferido o quartel. A Prefeitura contratou o arquiteto Cyro Corrêa de Oliveira Lyra, que, entre 1980 e 1983, coordenou o restauro do conjunto arquitetônico do Solar do Barão.

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Detalhe no teto de uma das salas do Solar do Barão.

O nome de Ildefonso Pereira Correia deixou de ser pronunciado por quarenta e quatro anos, tido como traidor da pátria. Seus atos foram banidos da história oficial do Paraná, documentos foram suprimidos e referências apagadas. O resgate de sua memória teve início entre 1940 e 1950, quando sua vida começou a ser investigada.

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Detalhe do Solar do Barão.

Em 1942, foi publicada a biografia “O Barão de Serro Azul”, de Leôncio Correia. Em 1973, publicou-se “A Última viagem do Barão do Serro Azul”, de autoria de Túlio Vargas. Com base nessa obra, foi produzido o filme “O Preço da Paz”, lançado em 2003.

A Lei nº 11.863 de 2008 inscreveu o nome de Ildefonso Pereira Correia, o Barão de Serro Azul, no Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Liberdade e da Democracia, em Brasília. Foi o único paranaense, até hoje, a receber essa honraria.

Solar do Barão
Endereço: Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 533 – Centro

Contato: (41) 3321-3367

Agendamento de visita guiada: (41) 3321-3275

Horário de funcionamento:
9h às 12h e 13h às 18 (2ª a 6ª feira) e 12h às 18h (sábado, domingo e feriado)

Saiba mais:

Conheça a história do Solar no site da Fundação Cultural de Curitiba.

Artigo: Nobre que deu vida pela paz tem heroísmo reconhecido, publicado em 31/01/2009 na Gazeta do Povo.

Artigo: Os ossos do Barão, publicado em 28/08/2010 na Gazeta do Povo.

Leia a íntegra da Carta da Baronesa do Serro Azul ao Barão do Ladário

Consulte o site da Fundação Cultural de Curitiba para conhecer os cursos que ela oferece. Alguns deles acontecem no Solar do Barão.

Biografia do Barão pela Federação Espírita do Paraná

Biografia do Barão na Wikipedia

As informações desse texto foram coletadas no Solar e nas fontes citadas acima. Todas as fotografias que ilustram esse texto são de minha autoria, exceto a primeira, extraída do site da Fundação Cultural de Curitiba. Para reproduzir, favor citar a fonte.

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