9 dias sozinha no Peru – Lima

O famoso “pau-de-selfie” é indispensável quando se faz uma viagem sozinha. 😀


Quando mais nova, eu nem pensava em viajar sozinha. Parecia-me a coisa mais triste do mundo não contar com uma companhia durante as férias. Depois, tive a sorte de casar com o melhor companheiro de aventuras que existe. Damo-nos perfeitamente bem, estamos sempre em sintonia e nos divertimos demais juntos.

Acontece que, esse ano, o marido só poderia tirar férias a partir de outubro. E eu senti que morreria se tivesse que esperar até lá. Foi dele que partiu a ideia: “se quiser viajar sozinha, eu tenho milhas para vencer que posso ceder para você”. Comecei então a pesquisar destinos que coubessem dentro da soma das minhas milhas com as dele, e logo me decidi pelo Peru.

As férias não poderiam ser muito longas, para sobrarem dias para viajar com o marido, lá por outubro. Consegui encaixar ida e volta por bons preços (em milhas) em nove dias de viagem. Muito pouco tempo para conhecer tudo que eu gostaria no Peru – país incrível e recheado de boas surpresas.

Minha jornada começou no dia 22 de julho, às 20h22, num voo de Curitiba a Congonhas. Meu próximo voo sairia de Guarulhos somente na manhã seguinte, às 7h45. Uma amigona que mora em São Paulo infelizmente estava em Curitiba nessa data, e até chegou a me oferecer a chave de sua casa para eu passar a noite. Mas calculando as despesas de táxi, na bandeira 2, concluí que valia mais a pena dormir no Slaviero Fast Sleep, o hotel dentro do aeroporto de Guarulhos. Peguei o transfer gratuito da Tam de Congonhas para Guarulhos e usei o Fast Sleep apenas para um banho e para dormir naquele quarto/cabine que, como disse uma amiga, parece uma gavetinha de cemitério, de tão pequeno.

O voo para Lima foi num Airbus Industrie A320-100/200. Assisti a um filme (About Time) no meu computador, já que esse pequeno avião não possui opções de entretenimento. Cheguei à capital peruana às 11h (horário local). Minha primeira dica: o balcão de informações turísticas está localizado no primeiro piso, os táxis estão no térreo. Logo de cara, no térreo, um taxista chegou me oferecendo uma corrida, e disse que até onde eu queria ir (Miraflores) custaria 120 soles ou 40 dólares. Eu achei muito caro, e tentei me livrar do cara, que me perseguia onde eu fosse. Fui ao banheiro e quando saí ele estava lá me esperando, sorridente. Fui sacar dinheiro, ele foi atrás. Até que subi ao guichê de informações turísticas e ele ficou lá embaixo. Disseram-me que o valor estava mesmo muito alto e que eu devia procurar o quadro onde constam os valores tabelados. Cada companhia tem seu quadro, a moça me disse que a Taxi Green costuma ser a mais barata. O quadro dessa empresa está à extrema direita no térreo. Lá vi que o preço para Miraflores era de 50 soles.

O percurso é de uns 25 a 30 minutos. Passamos por algumas regiões meio feias, e a paisagem fica bonita mesmo é em Miraflores, um bairro lindo. Pedi ao taxista para me deixar no Shopping Larcomar, e almocei no Restaurante Mangos, onde há um buffet custando 55 soles por pessoa. Você come até morrer à vontade, inclui sobremesa. A comida é deliciosa, o atendimento é ótimo (apesar de ter achado que o atencioso garçom Edwin estava demasiadamente interessado em saber se eu era casada, se estava sozinha e onde me hospedaria, mas me fiz de boba e deu tudo certo), mas o mais incrível mesmo é a vista.

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Pegue uma mesa na varanda, se houver disponibilidade. Ali eu fiquei, bebendo um doble coca sour (versão do pisco sour que inclui folhas de coca maceradas), comendo quilogramas de ceviche de peixe e de frutos do mar (guarde essa informação) e observando pessoas voarem de parapente sobre o mar.

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Justo em frente ao restaurante, dentro do shopping, encontrei outro ponto de informações turísticas, e ali perguntei de onde partem os voos. Dava para ir andando, era logo depois da Plaza del Amor. Lá fui eu, mochilão nas costas. Parei na praça por um tempo, tirei um cochilo sob a sombra de uma árvore para fazer a digestão.

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Plaza del Amor

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Pouco tempo depois, deixei minha mochila sob os cuidados de alguns pilotos e, 240 soles mais pobre, voei com o experiente piloto Akita sobre o Pacífico, acenei para o pessoal que almoçava no Mangos, vi meu reflexo nos vidros espelhados do Marriot. Que experiência incrível!

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Saí feliz e saltitante pelas ruas — ou quase, contando o peso da mochila nas costas — e um taxista com um carro muito, mas MUITO podre parou ao meu lado, querendo saber se eu precisava de táxi. Perguntei quanto era até o Museo Larco (em Lima não há taxímetros, então você deve sempre negociar antes o valor da corrida) e ele disse que eram 6 soles. Não sabia qual era a distância então concordei. O cara andou, sei lá, um quilômetro, talvez, e parou na frente de um centro cultural qualquer, na Avenida Larco, e disse: “museo”. Eu sabia que não era ali, mas já estava bastante arrependida de ter entrado naquele táxi caindo aos pedaços e decidi não desperdiçar a oportunidade de sair dele. Paguei os 6 soles, sequei as lágrimas no meu papel de trouxa e saí em busca de um táxi de verdade. Aqui vai então minha segunda dica: não entre em táxis estranhos caindo aos pedaços em Lima. Todos os oficiais que eu peguei eram carros pretos bem ajeitados.

O táxi de verdade até o Museo Larco, que fica longe de Miraflores, custou 20 soles. O taxista era bem simpático e foi me dando várias dicas que ficarão para uma próxima visita a Lima: disse que La Mar é a melhor cevicheria da cidade, e recomendou o buffet criollo do El Bolivariano aos domingos (65 soles por pessoa).

Museo Larco

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IMG_7126O Museu, cuja entrada custa 30 soles, possui uma impressionante coleção arqueológica, que permite compreender o desenvolvimento da história do Peru. O prédio é bonito, repleto de flores. Nos fundos há um lindo jardim, um café e uma galeria de arte erótica pré-colombiana. Confesso que eu não consegui aproveitar tanto quanto gostaria, pois não estava me sentindo nada bem. Primeiro meu nariz entupiu até a alma, depois tive falta de ar. Achei que fosse rinite alérgica e asma. Mal sabia que eram os primeiros sinais de uma forte reação alérgica à overdose de frutos do mar no Mangos (lembra que eu disse para guardar a informação?).

Pedi um táxi para me levar até o terminal do Grupo Soyuz e PerúBus, onde tomaria o ônibus para Pisco. Meu destino final era Paracas, mas o último ônibus direto de Lima para Paracas (da Cruz Del Sur, uma excelente companhia) sai às 14h. Ou seja, eu teria que abrir mão do voo de parapente, do museu, e não sei nem se daria para almoçar no Mangos. Então decidi pegar esse ônibus da Soyuz que para em Pisco, e tem mais ou menos um a cada hora. De Pisco até Paracas, de táxi, leva-se menos de meia hora.

O que eu não sabia, e o taxista bem poderia ter me avisado, é que a região em que está localizado o terminal da Soyuz, La Victoria, é a mais perigosa de Lima. Todos os peruanos para quem contei que estive lá ficaram apavorados, dizendo que eu jamais deveria ter me aventurado nesse bairro. No táxi, eu não conseguia ficar acordada, mal abria os olhos e já apagava em seguida. Não tinha percebido ainda, mas provavelmente já tinha febre (a reação alérgica que citei antes). A corrida custou 15 soles. Paguei e, quando fui descer, senti que alguém puxou minha mochila. O cara que tentou roubá-la deve tê-la achado muito pesada, e agarrou então meu iPhone, que estava na minha mão.

Minha mochila caiu no chão e ficamos nós dois, eu e o ladrão, lutando pelo iPhone. Ele gritava: “dame! Dame! Dame!”, e eu respondia: “no! No! No!”. Ele puxava o telefone, empurrava meus braços (fiquei com alguns hematomas). Eu senti que estava prestes a perder a luta: ia ficar só com a capinha nas mãos. Foi então que, instintivamente, decidi gritar com toda a força dos meus pulmões. Não pedi socorro, nem disse uma palavra específica, apenas emiti um berro de horror, como gritaria se estivesse sendo esfaqueada ou algo do tipo. O cara deve ter se assustado e saiu correndo. O taxista maldito ainda estava parado ali. Assim como dezenas de outras pessoas ao meu redor, apenas olhava, sem mover um músculo para me ajudar. Juntei todas as minhas coisas e entrei no terminal, muito atordoada. Imagino que se eu estivesse em condições normais de funcionamento, sem cansaço, susto e febre, teria gritado: “AQUI É BRASIL, MALUCO! Tá achando que me arranca o iPhone fácil assim? Não sou gringa, não, trouxa!”

Eis minha terceira dica: se possível, não vá de jeito nenhum à região de La Victoria. Se precisar mesmo ir, esteja muito atento, com todos os pertences bem guardados, sem celular, câmera ou relógio à vista, saia do táxi e entre no terminal o mais rápido possível. Lá dentro é tranquilo, o terminal é pequeno e tem seguranças na porta.

Interior do terminal de ônibus da Soyuz/PerúBus

Meu ônibus (que custou 28 soles) saiu só às 19h, e chegou a Pisco quase 23h. A viagem foi terrível. Sofria de calafrios, tonturas, apagava e acordava sem saber onde estava. De acordo com o e-mail que eu havia recebido do meu hostel, no terminal da Soyuz em Pisco eu encontraria uns táxis coletivos, que custariam 1 sol para chegar ao centro de Pisco. Lá eu pegaria outro desses táxis coletivos até Paracas, por 5 ou 6 soles. A corrida num táxi privativo deveria custar 20 soles. Naquele horário, porém, não achei nenhum desses táxis coletivos, e me cobraram 30 soles pelo privativo. Tentei negociar, mas não teve jeito. Era tarde, o lugar era bem estranho, na beira da estrada, sem nada por perto, e eu estava mais ou menos à beira da morte. Aceitei.

Entrei num carro ainda mais podre que aquele táxi golpista em Lima. Nem cinto de segurança havia. O carro tremia e fazia um ruído (aquele tátátá de fusca velho, sabe?) muito alto, enquanto o motorista, sem me dirigir palavra nem sequer me olhar na cara, tocava por uma estrada escura que eu rezava para ser a que me conduziria a Paracas. A viagem levou entre 20 e 30 minutos, que me pareceram uma vida. Eu ia pensando: “é isso. Acabou. É hoje que serei estuprada, roubada, morta. Não necessariamente nessa ordem”. Enfim, vi a placa “Bienvenido a Paracas” e respirei aliviada.

Aí está minha quarta dica, especialmente para mulheres que viajam sozinhas: programem-se para chegar cedo nas cidades. Pode ser bastante assustador chegar a um local desconhecido à noite, sem conhecer ninguém, com sua cara de estrangeira.

Cheguei ao hostel Kokopelli, que recomendo bastante a quem passar por Paracas. Fui bem recebida, reservei meus passeios para o dia seguinte e logo fui acomodada no meu dormitório, dividido com mais 5 pessoas. Coloquei minha bagagem no locker, comprei uma água no bar (onde estava rolando uma festa animada ao som de hip hop) e fui tomar um banho. Levei um susto gigantesco ao ver meu rosto no espelho, inchado e muito vermelho. Ao tirar a roupa, vi que meu corpo inteiro estava vermelho e quente como se eu tivesse tomado um torrão ao sol. Após o banho, fui dormir. Acordava ensopada, em seguida congelava, tremia, tinha calafrios. Uma hora acordei com a cabeça explodindo e levantei para tentar achar um remédio na mochila. Desmaiei. Acordei no piso gelado, com minha lanterninha acesa, caída ao meu lado. No quarto, todos dormiam.

Esse foi o momento mais triste da viagem. Perguntei-me o que eu estava fazendo ali, longe de casa, sozinha. Queria demais alguém conhecido que eu pudesse apenas abraçar e chorar. Queria minha mãe pra me fazer um chazinho e dizer que ia ficar tudo bem. Subi a escada para o meu colchão, na parte de cima de um dos beliches, e chorei baixinho até dormir, sentindo as bochechas arderem de febre.

A boa notícia é que TUDO que podia acontecer de ruim nessa viagem aconteceu no meu primeiro dia, e daí para frente foi só alegria. Eu juro! Conto mais no próximo texto. 🙂

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