9 dias sozinha no Peru – Paracas

Depois de todas as emoções e os dramas do meu primeiro dia no Peru, incluindo drinks exóticos, voo de parapente sobre o Pacífico, golpe de taxista, tentativa de assalto, febre, alergia, desmaio, desespero, solidão e medo, sobrevivi para levantar cedinho no dia 24 em Paracas, tomar meu café-da-manhã e enviar uma mensagem pelo Whatsapp para uma de minhas melhores amigas, casada com um médico, descrevendo meus sintomas. Ele diagnosticou que era mesmo alergia. Para você é fácil saber disso, porque eu já contei no texto anterior que foi uma reação alérgica a frutos do mar, mas para mim, que estava lá morrendo, na hora foi meio difícil identificar o que me acontecia.

A propósito, vale dizer que eu sempre comi frutos do mar (eu não como outros tipos de carne, mas peixe e frutos do mar, sim) e nunca tinha tido uma reação assim. Então vale mais essa dica: consuma com moderação alimentos que tendem a ser vilões alérgicos, especialmente se estiver viajando. E se você tem histórico de qualquer tipo de alergia, jamais deixe de levar seu antialérgico, aquele que você já está habituado a usar.

Eu já havia tomado dois comprimidos do meu anti-histamínico no dia anterior, após o entupimento nasal e a asma (usei também minha bombinha). Tomei mais um comprimido de manhã e segui a vida. Meus olhos ainda estavam bastante inchados, as pálpebras superiores formavam uma dobra, coisa linda de se ver. Mas a vermelhidão já havia sumido e, aparentemente, a febre também. Imagino que ter tomado o antialérgico logo aos primeiros sintomas tenha ajudado a contornar a situação e evitado situações um pouco mais chatas como anafilaxia, edema de glote e morte. Ufa!

Ainda cedo, parti para o passeio até as Islas Ballestas, um incrível refúgio natural que abriga numerosos tipos de pássaros e animais marinhos. No percurso de barco, passamos pela enigmática figura conhecida como “Candelabro”, com idade estimada em 2500 anos, que não se sabe quem fez nem o motivo.

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A imagem do “candelabro” está clarinha nessa foto, em razão do orvalho da manhã, mas se observar com cuidado você enxerga. =)

Nas ilhas, muitos pássaros, alguns pinguins fazendo fila para mergulhar e lobos marinhos preguiçosos fazem a nossa alegria. As formações rochosas são cobertas de guano (fezes dos pássaros), um poderoso fertilizante exportado para o mundo todo. Há quem reclame do aroma local. A natureza pede desculpas aos narizes mais sensíveis por não ter sempre cheirinho de flores. No barco, fui batendo papo com uma moça de Lima, que estava viajando com os pais. O passeio foi muito agradável.

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Voltando, fui ao terminal comprar minha passagem para Nasca (com “s”, é o nome atual da cidade peruana, com “z”, refere-se à civilização pré-inca). Meu plano inicial era, à tarde, pegar um táxi privativo até Huacachina — um oásis no meio do deserto — para fazer um divertidíssimo passeio de buggy, conhecido no local como arenero. De lá, pegaria um ônibus para Nasca. Eu repetiria, porém, o erro da noite anterior, chegando muito tarde a uma cidade desconhecida. É preciso aprender com os erros, chicos. Portanto, com grande pesar, risquei Huacachina do meu roteiro, ficando para uma próxima oportunidade. Essa, aliás, é uma grande vantagem de viajar sozinha: você decide o que quer fazer, sem correr o risco de frustrar as expectativas de qualquer pessoa além de você mesma.

Passagem comprada, voltei ao local marcado para iniciar meu próximo passeio do dia, rumo à Reserva Nacional de Paracas. Trata-se de uma Área Natural Protegida (ANP), com extensão de mais de 335.000 hectares, entre terra firme e águas marinhas. Lá se observam lindas paisagens e formações rochosas impressionantes, como La Catedral, parcialmente destruída pelo terremoto de agosto de 2007. Na areia do deserto, encontram-se muitas conchas e fósseis de um molusco chamado Turritella, que viveu na região há 36 milhões de anos, quando todo o deserto era mar.

La Catedral, como era e como ficou após o terremoto

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Almoçamos no restaurante El Che — de acordo com os guias do nosso tour, o único confiável do vilarejo de pescadores. Sentei-me sozinha, mas fui logo convidada a me juntar a um grupo de estadunidenses. Um professor de espanhol (não me lembro de que estado americano, acho que Connecticut), numa viagem pelo Peru, conheceu uma peruana num vilarejo. Apaixonaram-se e casaram. O único lugar que ela conhecia, além daquele em que nasceu, era Lima. Hoje, vivem nos Estados Unidos, e sempre que podem viajar ele gosta de levá-la para conhecer as belezas de seu próprio país, antes de conhecer o restante do mundo. Ah! Mas, assim como eu, ela é apaixonada por Nova York! Estavam na mesa também o filho adolescente do professor e mais duas senhoras amigas da família, que celebravam a aposentadoria recém-conquistada. A comida estava boa! Eu pedi um peixe grelhado com arroz, bem básico, e comi pedindo que ele não tentasse me matar. Mas os pratos de quem pediu frutos do mar estavam lindos.

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Isso é outra coisa sensacional de viajar sozinha: não é preciso ser desinibida para fazer amizades. É muito comum as pessoas convidarem quem está só para se juntar a elas. Gostei muito da experiência de alternar momentos de contemplação e reflexão solitária (que muito me agradam) e conversas animadas, conhecendo gente diferente e exercitando idiomas diversos. Depois do almoço, passamos pelo pequeno Centro de Interpretação da Reserva, onde há algumas informações sobre os ecossistemas, a biodiversidade e a proteção de espécies ameaçadas na área.

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De volta ao Kokopelli, pude observar a sua estrutura que, infelizmente, não tive tempo de usufruir. Há uma piscina, a área do bar é bacana, e tem uma saída direto para a praia, onde se praticam diversos esportes aquáticos em razão dos ventos constantes. Aproveitei o Wi-Fi para mandar notícias para o marido e a família, e fui caminhando até o terminal de ônibus (uns 15 minutos).

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A passagem para Nasca custou 35 soles e o ônibus era bem razoável. Cheguei por volta das 20h e peguei um táxi para o meu hostel, o Brabant, que eu já não recomendo tão efusivamente. O taxista tentou de todo jeito me convencer a fechar com ele os passeios para o dia seguinte, inclusive o voo sobre as linhas de Nazca, pois ele trabalhava também com turismo. Delicadamente, eu disse que estava muito cansada, pedi que deixasse seu telefone comigo que eu ligaria na manhã seguinte. No hostel, fui recebida por Jesus — o recepcionista, não o salvador. Contratei os passeios, todos mais baratos do que os valores oferecidos pelo taxista.

Fiquei num quarto com mais duas meninas, ambas canadenses. O lugar era meio estranho, mal-conservado, e só tínhamos um banheiro: apenas um vaso sanitário e um chuveiro, para todos do hostel. Felizmente estava meio vazio. Ainda assim, esquisito. Mas serviu para carregar meus aparelhos eletrônicos, tomar um banho, mandar mensagens avisando que continuava viva e, finalmente, dormir.

No próximo texto, conto sobre as aventuras em Nasca.

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2 comentários em “9 dias sozinha no Peru – Paracas

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