9 dias sozinha no Peru – Nasca

Os nazca (a palavra com “z” se refere à civilização, e com “s” à cidade atual, mas não é uma regra absoluta e em cada lugar está escrito de um jeito) foram uma civilização pré-inca que se desenvolveu entre 300 a.C e 800 d.C no sul do atual Peru, especialmente em torno da cidade de Cahuachi, que foi o seu centro religioso e político. Por razões que desconhecemos, os nazca abandonaram Cahuachi e construíram outras cidades em diferentes regiões.

Esse povo desenvolveu artigos de ouro, cerâmica e elaborados trabalhos têxteis, mas o maior destaque de seu legado são os gigantescos desenhos de animais, plantas e formas geométricas traçados no deserto. Por suas dimensões, essa obras só podem ser vistas do céu. Por isso, na manhã do dia 25 de julho, embarquei numa pequena aeronave, com espaço para apenas quatro passageiros, além do piloto e do copiloto.

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O hostel em que me hospedei.

Eu já havia feito a reserva na noite anterior, ao chegar ao hostel. O voo custou US$ 70,00, além de uma taxa de embarque de 25 soles. O horário dependeria das condições climáticas. Acordei umas 8h e Jesus me disse — refiro-me ao recepcionista e não ao nosso Senhor — que passariam para me buscar às 9h. Ajeitei minhas coisas e não tomei café-da-manhã: essa é a recomendação para não passar mal durante as manobras bruscas do aviãozinho.

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No aeroporto, esperei em torno de uma hora até ser chamada para a sala de embarque. Os passageiros são distribuídos de acordo com o peso (a gente tem que se pesar antes de embarcar). Recebemos fones de ouvido para ouvir o piloto  durante o voo. Ele vai apontando os desenhos e dando informações.

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O vale e o deserto, vistos do avião.


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Os geóglifos se estendem por uma área de 50 quilômetros de comprimento por 15 quilômetros de largura. Acredita-se que as linhas tenham sido traçadas entre 400 e 650 d.C. A maior parte delas se encontra preservada, graças ao clima extremamente árido e ao isolamento da região. São desenhos rasos (em torno de 6 centímetros de profundidade), feitos através da remoção do óxido de ferro marrom-avermelhado revestido por pedras que cobrem a superfície do deserto de Nazca. Com isso, forma-se o contraste com a terra de cor clara que surge ao retirar-se o cascalho.

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A Carretera Panamericana Sur corta o deserto e destruiu muitos dos desenhos.

Somente a partir de 1930, quando as pessoas começaram a viajar de avião sobre o deserto, as linhas foram identificadas. Antes disso, foi construída a Carretera Panamericana Sur, a rodovia que corta o deserto, destruindo muitos dos desenhos. Em 1994, a UNESCO os designou como Patrimônio Mundial.

O aviãozinho vira de um lado para o outro, inclina bastante, fazendo manobras radicais para que os passageiros de ambos os lados consigam ver os desenhos. Naturalmente, apenas alguns são selecionados para ser vistos durante o voo, pois são centenas de linhas simples e formas geométricas, e mais de setenta desenhos de animais, aves, peixes e figuras humanas.

Como os nazca não possuíam escrita e não se tem notícia de seus descendentes para transmitir a história oralmente, proliferam teorias para tentar responder as perguntas que os desenhos despertam, especialmente como e por que foram feitos. Alguns estudiosos acreditam que eram uma espécie de oferenda, a fim de pedir água paras os deuses. Os guias da região riem dessa teoria, que eu também acho bastante ingênua. Os caras viveram na região por séculos, construíram aquedutos elaborados e sabiam exatamente onde buscar água. Eles sabiam que, literalmente, ela não ia cair do céu: chove em torno de 20 minutos POR ANO em Nasca.

De acordo com a maior parte dos guias, os desenhos e as formas geométricas apontam para cidades, centros religiosos e também para montanhas e outras formações naturais que possuíam um caráter espiritual para os nazca. Acredita-se também que eles podem constituir algum tipo de calendário astronômico. Um detalhe interessante é que a maior parte dos animais representados nos desenhos não existem nem jamais existiram na região, o que prova que os nazca, assim como eu, gostavam bastante de viajar. ☺

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A baleia.

Entre os desenhos que eu vi, havia uma baleia, um beija-flor estilizado, uma aranha, um macaco, uma figura humanóide conhecida como “o astronauta”, entre outras. Os maiores têm quase 3oo metros.

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Uma das figuras mais bonitas é o colibri.

Almocei num restaurante simplesinho. Comi uma saladinha de entrada, e massa com ají, um molho apimentado muito saboroso. O prato acompanhou um copo de suco, tudo por 8 soles. Depois voltei ao hostel para esperar o meu passeio da tarde. Havia reservado o tour de buggy pelo deserto, aquele que eu pretendia fazer em Huacachina e desisti por falta de tempo.

O passeio, que custaria 75 soles, incluía, além da aventura no deserto, uma visita a uma pirâmide da região (que não era a famosa de Cahuachi) e um cemitério antigo, também genérico, pois não era o de Chauchila. Porém, na hora que deveriam me buscar para o tour, o rapaz apareceu para avisar que ele havia sido cancelado, pois as outras três pessoas que o fariam comigo estavam passando mal desde o voo sobre as linhas de Nazca, pela manhã. Que frustração!

Consegui ainda me encaixar num passeio para visitar o centro de Cahuachi, que acabou sendo bem interessante. Fomos em três pessoas com nosso simpático guia. No caminho, ele parou num local e nos convidou a descer do carro. Começamos a andar pela areia, e por toda parte se viam ossadas humanas. Ele explicou que ali havia um cemitério, debaixo de toda aquela areia. Pessoas reviram o local em busca de objetos de valor, abandonando os ossos. Não há nenhum cuidado ou investimento pelo governo.

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Ossadas da civilização pré-inca, fragmentos de cerâmicas e tecidos, expostos e abandonados.

Mesmo o cemitério de Chauchila, famoso por suas múmias bem conservadas – expostas, a céu aberto – cujos cabelos continuaram crescendo, é totalmente abandonado. Um único vigia cuida do local, apenas durante o dia. Todos os objetos de ouro, as cerâmicas e mesmo algumas múmias foram furtados do lugar, vendidos para acervos particulares ou museus do mundo todo.

O centro cerimonial de Cahuachi estava situado no vale do rio Nazca, a 28 quilômetros da cidade e próximo dos geóglifos. Seu nome significa lugar onde vivem os videntes. Esse lugar está sendo escavado desde 1982 pelo arqueólogo italiano Giuseppe Orefici. O guia do meu tour conta que todos os achados no local são levados para Itália, a pretexto de serem estudados, e nunca são trazidos de volta.

Sabe-se que em 1998 descobriu-se um depósito de roupas, com 200 peças de tela estampada. Muito provavelmente, artigos de ouro e cerâmica também foram retirados do local.

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Panorama de Cahuachi.
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Com o guia do passeio.

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As edificações de Cahuachi são todas de adobe. A Grande Pirâmide, com seus 28 metros de altura, 90 de largura e 110 de comprimento, composta por sete plataformas escalonadas, é a que mais se destaca. Há ainda o Grande Templo Escalonado e os pequenos montes. O guia nos conta que muito provavelmente todos os morros ao redor são outras construções cobertas de areia. Onde quer que se escave, há uma descoberta. Em suas palavras, “no Peru, você levanta uma pedra e encontra uma civilização antiga”. O descaso dos governantes diante desses tesouros históricos é estarrecedor. 😦

Ainda haveria mais para ver nos arredores da simpática cidade de Nasca, como os aquedutos e o cemitério de Chauchila, mas eu não tinha tempo para tudo isso. Mais tarde, caminhei pela cidade, fiz um lanche e voltei ao hostel para buscar minhas coisas e seguir para a rodoviária. À noite embarquei num super confortável ônibus semi-leito da Cruz Del Sur com destino a Cusco. A viagem durou 15 horas, ao longo das quais foi servido o jantar e o café da manhã, eu dormi bastante e ainda assisti a um filme (há uma pequena TV individual por assento).

Logo mais eu conto sobre a apaixonante cidade de Cusco.

 

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