Quando o amor maior do mundo vive dentro de você

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Sempre gostei de me expressar através da escrita. Quando criança, a vontade era tão grande que não esperei a professora começar a me alfabetizar. Aprendi os sons das letras perguntando à minha mãe, e comecei a uni-las para formar palavras.

Por toda a vida imaginei que, quando engravidasse, escreveria sobre todas as minhas sensações. Faria um diário, talvez um livro. Tenho em casa, guardadas numa velha caixa, cartas escritas para mim por minha mãe, antes do meu nascimento. Ela me chamava de filhote, porque não sabia se eu era um menino ou uma menina. Naquela época, não era possível saber com antecedência. Eu imaginava que, quando chegasse a minha vez, escreveria muitas cartas ao meu bebê.

Minha vez chegou. Meu marido e eu decidimos juntos que era o momento de acolhermos uma nova vida no seio da família. Uns três meses depois dessa decisão, pedi ao meu médico para fazer um exame para saber se eu estava ovulando, pois meu ciclo menstrual era bem irregular e era difícil calcular meu período fértil. No dia do exame, 21 de agosto (o 12º daquele ciclo), a médica avisou: “você vai ovular em cerca de 12 horas!”. No mesmo exame, ela constatou que eu tinha um pólipo no útero. Na consulta seguinte com meu GO (ginecologista e obstetra), ele não me animou muito. Disse que a chance de engravidar diminuía bastante com o pólipo (que dificulta a fixação do óvulo fecundado no útero) e que, se minha menstruação viesse, eu devia já marcar a cirurgia para removê-lo.

O Dr. Alvaro disse, ainda, para eu esperar até o dia 14 ou 15 de setembro para fazer o teste de gravidez e ter um resultado certeiro. Mas no dia 9, antes mesmo da data em que supostamente minha menstruação viria, eu estava me sentindo diferente. Não sei explicar quando me perguntam “diferente como?”. Só diferente. Fiz o exame de urina logo que acordei, e duas linhas rosa fizeram o mundo parar por um instante. Não contei para o marido, decidi antes confirmar no exame de sangue, feito no mesmo dia, às 18h30. O rapaz na recepção disse que o resultado sairia em 24 horas. A não ser que ele fizesse o pedido com urgência. Eu queria com urgência? A voz do rapaz era de excitação, ele parecia querer que o resultado saísse depressa quase tanto quanto eu. Pedi com urgência.

Naquela noite, marido e eu vimos um filme (não lembro qual). Ele não notou, mas de vez em quando eu clicava para atualizar a página do laboratório. O filme terminou, marido foi mexer numa planilha, estava calculando mais ou menos quanto dinheiro precisamos guardar para irmos para a Alemanha, onde ele sonha fazer um mestrado. Já passava das 23h e eu imaginei que ninguém mais estaria no Frischmann Aisengart colocando resultados de exames no site àquela hora. Mas alguém estava. O resultado do Beta Quantitativo foi 3472 mUI/mL. Parecia coisa pra caramba, mas não dizia nada além disso no papel, não havia valores de referência. Fui buscar na internet. Existem várias tabelas que adotam parâmetros diferentes, mas em regra a partir de 50 mUI/ml considera-se positivo. Eu estava, portanto, bem mais que ligeiramente grávida.

Marido voltou à sala com o computador na mão, havia atualizado a planilha. Não consegui nem registrar o valor que ele havia recém calculado. Apenas disse a ele: “tenho uma nova informação essencial que você precisa incluir na sua planilha e nos nossos planos. O resultado desse exame aqui”. Levou uns segundos para ele entender e me perguntar: “VOCÊ ESTÁ GRÁVIDA?”. Celebramos num abraço, ele sentou ao meu lado e, com os olhos perdidos em algum ponto da parede, disse, provavelmente para si mesmo: “eu vou ser pai”.

Imagine, portanto, o quão planejado foi esse bebê. Sei até o dia da concepção: 21 ou no máximo 22 de agosto. Em 9 de setembro confirmei sua existência, ainda microscópica, dentro do meu ventre. Na primeira ecografia, parecia mais um camarãozinho, mas chorei ao ouvir o som de seus batimentos cardíacos acelerados. Aquele som tornou real algo que, até então, parecia somente um desejo muito grande.

Decidimos guardar a notícia pelo primeiro trimestre. E mesmo depois disso, fomos contando para as pessoas mais especiais conforme as encontrávamos pessoalmente. Estranhamente, eu não sentia muita vontade de falar – ou mesmo escrever – a respeito. Os sentimentos eram absolutamente intensos e inéditos, mas eu não sabia como (ou talvez não quisesse) expressá-los.

A cada dia surgem sensações diferentes. Muitas delas têm nome, como as dores de cabeça e cólicas dos primeiros dias, os enjoos e a falta de apetite que me fizeram emagrecer mais de 4 quilogramas nos primeiros meses, irritação nos olhos, pressão baixa, sono, muito sono, mais sono, cansaço. Depois que os enjoos passaram, muito apetite, que me fez recuperar os 4 quilogramas e engordar quase outros 5 em pouco mais de 2 meses. A memória cada dia menos confiável. Se não estiver marcado na agenda do celular, com alarme programado, é fácil esquecer qualquer compromisso. Mais que isso: às vezes estou falando e não consigo me lembrar de alguma palavra simples. Outro dia, não conseguia lembrar o nome de Roma. É um tanto humilhante ter que buscar no Google “capital da Itália” ou “quem tem boca vai aonde mesmo?”.

A sede aumentou, mas não tanto quanto a vontade de fazer xixi. Parece que cada litro de água ingerida se transforma em dois de urina. A fome aumentou também, mas o estômago só encolhe, esmagadinho pelo útero crescente. A barriga parece que surgiu de um dia para o outro. E dobrou de tamanho em uma semana. As costas doem cada vez mais, e vai ficando mais difícil encontrar uma posição confortável para dormir. A visão piorou – o astigmatismo passou de 0,5 para 1 grau, e surgiu 0,25 de miopia, que nunca tive antes. Tudo efeito dos hormônios. Também são eles que deixam os tendões e ligamentos mais frouxos, o que, somado ao aumento de peso e ao deslocamento do meu centro de gravidade, diminuiu o arco na sola do meu pé, deixando-o mais chato e, com isso, um tiquinho mais comprido. Muitas mulheres precisam trocar todos os sapatos durante a gravidez e, em alguns casos, a mudança é permanente! Ninguém me avisou disso antes.

Por outro lado, a simbiose entre mim e o pequeno ser que se forma aqui dentro está entre as mais surpreendentes façanhas da natureza. Segundo um estudo de bioquímica publicado pela Universidade de Navarra, desde as primeiras semanas de gestação se estabelece uma comunicação molecular entre mãe e bebê. Por meio desse diálogo silencioso, o embrião desativa as células maternas de defesa que deveriam rejeitá-lo como um organismo estranho. Metade dele veio do pai e é, portanto, distinta do corpo materno, mas não é reconhecida como um perigo.

Células da mãe passam para o bebê pelo cordão umbilical, mas também células do sangue do feto e da placenta, que são pluripotenciais, passam para a circulação materna. Possuem grande capacidade de autorrenovação e colaboram com as células mãe adultas na função regenerativa do corpo da mulher, que as conserva por toda a vida. Ou seja, engravidar rejuvenesce. Isso se chama microquimerismo. Engravidar também reduz o estresse: aumenta a produção de oxitocina (neurotransmissor relacionado à confiança, conhecido como “hormônio do amor”) e reduz a de cortisol.

Notícias tristes me fazem chorar. Notícias felizes também. Algumas músicas ganharam um sentido totalmente novo. De vez em quando estou distraída fazendo alguma coisa, e percebo que estou levando chutes e/ou cutucões há algum tempo. Basta eu notar, que o movimento cessa. É como se o bebê só quisesse me lembrar que está ali. E como se adivinhasse meu sorriso diante da lembrança. Outras vezes, repouso minha mão quentinha sobre o ventre, e a movimentação se intensifica. Mas é quase sempre só para mim. É difícil conseguir mostrar para alguém ou filmar, acho que tenho um bebezinho tímido.

Alguns alimentos que eu adorava agora me causam quase repugnância. O vício em café se transformou em aversão. Outras coisas que eu não comia agora me dão água na boca só de imaginar.

Várias outras sensações não têm nome. Talvez por isso eu tenha ficado quietinha por tanto tempo. Via amigas anunciando a gravidez logo nos primeiros dias, compartilhando imagens do primeiro ultrassom, mas eu guardava a minha alegria como um segredo só nosso, de nós três. Vi uma palestra sobre puerpério, da psicoterapeuta perinatal e materna Flavia Penido, e em um momento ela falava da fusão entre mãe e bebê. Essa fusão, que também é um dos temas do livro “A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra”, da psicóloga Laura Gutman, acontece nos níveis emocional, físico, psíquico, espiritual. Na palestra, Flavia explicou que, assim como o bebê não sabe explicar o que está sentindo, graças a essa fusão, muitas vezes também faltam palavras à mãe. Agora tudo faz sentido.

Têm surgido ainda novas oportunidades de me apaixonar pelo meu marido. Acontece toda vez que o vejo emocionado, pensando comigo no nosso bebê. Quando percebo o amor imenso que ele já nutre por essa pessoinha. Quando ele cuida de mim, antecipa minhas necessidades e me dá todo o apoio de que preciso. Simplesmente tenho a certeza de que não poderia haver no mundo um pai mais incrível do que ele será, e isso me enche de tranquilidade e confiança. Decidimos juntos que somente no momento do parto saberemos se é uma menina ou um menino, porque para nós isso não faz mesmo diferença. O que a natureza nos confiar será digno de todo amor e cuidado. E se quiser vai andar de skate, patins, bicicleta, jogar futebol, fazer judô e balé, correr na rua, rabiscar paredes, brincar de astronauta, casinha e pirata. Não vamos impor limites à sua imaginação e criatividade, como ilimitado também é o nosso amor.

Hoje finalmente decidi escrever algo sobre esse processo, e as palavras vieram assim, um pouco desordenadas, e talvez não façam tanto sentido para o leitor. Mas sei que meu pacotinho entende tudo isso, num nível molecular e também além da matéria. Todo o meu sentir se registra nas suas pequenas células. Quando ela ou ele nascer, eu direi todos os dias que a/o amo, mas por enquanto já está dito. Entre nós, enquanto somos duas vidas em um só ser, tudo está compreendido. 

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