A maternidade não é um sepulcro

Meu puerpério foi muito difícil e pesado. Olhando para trás nem me reconheço naquele – felizmente curto – período. Leio os textos que escrevi e eles não parecem meus. Hoje sinto que muito da tristeza, da falta de confiança em mim mesma e do constante medo de errar que carreguei comigo no pós-parto foram fruto da violência obstétrica que sofri. Some-se a isso as alterações hormonais e as inseguranças normais da maternidade, e o resultado foi uma completa desconexão com minha intuição. Levei alguns meses para começar a ouvir a voz interior que hoje conduz a minha forma de maternar.

Superadas as dificuldades iniciais, ser mãe tem se revelado a cada dia a experiência mais deliciosa, rica e desafiadora da minha vida. Muita coisa mudou, e com certeza a maior parte delas foi para melhor. Abri mão de algumas coisas, mas ganhei muitas outras que nem imaginava.

Vida social, amizades, jantares, viagens, passeios culturais? Eu digo que tudo isso é possível e muito agradável com filhos. O ritmo pode ser diferente, algumas coisas são adaptadas a esse novo membro da família que merece o mesmo respeito que os adultos. Não vou obrigá-lo a dormir num cantinho numa festa, do mesmo modo que eu e o pai dele rejeitaríamos essa sugestão para nós se estivéssemos cansados e alguém insistisse para a gente ficar mais. Não fazemos nada sem estar a fim, e as vontades e necessidades do nosso filho têm o mesmo valor que as nossas (quando não mais).

Isso não quer dizer que não nos divertimos mais, ou que deixamos de fazer tudo que a gente curte. A gente se adapta ao bebê e o bebê se adapta à gente, construímos juntos uma nova rotina, sem apego à vida que levávamos antes da chegada dele, mas sem abandonar totalmente quem éramos. Equilíbrio é a chave.

Mas é muito, MUITO desagradável quando pessoas que pensam diferente – seja porque acham que temos que arrastar o bebê para qualquer programa e que ele “tem que se acostumar”, seja porque acreditam que temos que viver enclausurados – tentam impor sua visão ou ficam agourando nossa alegria.

Eu ouvi muita gente me dizer “aproveite para dormir agora, porque depois nunca mais” (como se fosse possível fazer banco de horas de sono), mas a verdade é que tenho dormido bem, obrigada. Meu bebê ainda mama algumas vezes por noite, em alguns períodos (saltos de desenvolvimento ou picos de crescimento) um pouco mais, mas fazemos cama compartilhada e as mamadas dele não me privam do meu sono. Depois que ele nasceu ouvi que devia aproveitar para sair enquanto ele só mamava, que depois da introdução alimentar era impossível. Hoje me pergunto se essas pessoas nunca viram uma banana. Basta levar uma fruta e água, além do meu peito, e o bebê estará nutrido por horas.

Li algo que a Debora Camargo escreveu e me identifiquei muito: quando as pessoas dizem “aproveite porque depois fica pior”, a impressão que dá é que elas estão torcendo para que a gente se dê mal só para elas provarem um ponto. Só para poderem dizer que não dá mesmo para viajar com crianças, que é impossível levá-las a um museu ou um concerto de música, que você tem SIM que se conformar que ser mãe é só sofrimento e renúncia.

E se você ousar continuar sendo feliz e satisfeita mesmo com filhos, essas pessoas vão dizer que é “sorte”. Ditas por determinadas pessoas, até coisas que todo mundo gosta de ter soam como algo pelo que a gente deveria se desculpar, como sorte, rede de apoio, dinheiro. Não é que você se esforça, planeja, tem um cuidado extra para conciliar o conforto e bem estar do seu filho com a sua alegria de viver e sanidade. É que você tem sorte. Não é que você batalha para realizar seus sonhos e se vira em mil pra dar conta de tudo, é que você tem rede de apoio. Não é que você prioriza viajar em vez de comprar um carro novo, é que você tem muito dinheiro pra torrar em viagens.

A dica é: se você vir alguém fazendo algo que você não imaginava ser possível, inspire-se! Acredite que você também é capaz de muito mais. Não permita que o seu medo se transforme em crítica ao modo de viver das outras pessoas.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 06/12/2016, às 10h50, enquanto o bebê tirava uma soneca. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]

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