Exterogestar: como dói amar assim

Conversávamos, minha mãe e eu, sobre as primeiras semanas do recém-nascido. Como são exaustivas, como o bebê suga as energias maternas reduzindo a mulher a um simulacro do que um dia foi. Ninguém nos prepara para essa missão, nem há mesmo como preparar. A prática é diferente, mais assustadora e cruel do que qualquer teoria.

Aí algumas pessoas dizem: “aproveite, essa é a melhor fase e passa muito rápido”. A melhor? Estou em cacos. Nunca estive tão cansada.

Então minha mãe disse que o fator de que se sente falta depois, quando passa, é a dependência total e absoluta do bebê em relação à mãe. E eu perguntei: “mas não é essa a pior parte?”

No fundo eu mesma já conhecia a resposta para essa pergunta. É, sim, a pior parte. É a melhor também. É ao mesmo tempo maravilhoso e terrível. É o maior erro e o maior dos acertos da natureza. Nossos bebês nascem antes do tempo, para que seus crânios dotados de cérebros bem desenvolvidos possam passar pelo canal vaginal. Se a gestação levasse o tempo necessário, morreríamos todos no parto, mães e bebês. Houve então essa adaptação evolutiva que nos diferencia dos demais mamíferos e de todos os seres viventes: nascemos incompletos e precisamos de cuidado intenso para sobreviver no início de nossa existência, ao contrário de outros animais, que já nascem saltitantes e em pouco tempo já podem caçar sozinhos. Quando não são capazes, as mães os abandonam.

A simbiose desenvolvida durante a gestação humana não termina, portanto, no nascimento. E ao mesmo tempo em que é exaustivo ter uma criatura que depende integralmente de nós, 24 horas por dia, é também algo de mágico experimentar uma conexão tão intensa com outro ser. Um ser que é outro, mas ainda é parte de nós.

Assim, compreendi: quando essa fase passar, vou sentir um alívio indescritível, e ao mesmo tempo serei tomada da saudade mais dolorosa da minha vida.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 25/06/2016, em pleno estado puerperal. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a autorização prévia da autora]

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