O ano em que eu fiquei sarada

Filho, quero contar que, por sua causa, passei a respeitar e amar esse corpo que habito. Cultivo hoje um carinho imenso por esse organismo que, ao longo de quase 41 semanas, colheu de minhas veias o melhor de mim para forjar o seu corpinho dentro do meu ventre. Que fabricou com perfeição seus órgãos e tecidos, caprichando nos acabamentos, enquanto conduzia, pelo cordão umbilical, os nutrientes necessários à sua vida e crescimento. E serviu-lhe ainda de abrigo até que estivesse pronto para vir ao mundo e respirar.

Não satisfeito, esse mesmo corpo pariu você – não sem dificuldade, é verdade – e produz até hoje seu alimento. Também não foi sempre fácil a saga da amamentação, mas com perseverança e muita vontade (de nós dois), estabeleceu-se essa relação tão intensa entre nós. E meus seios nunca mais serão olhados por mim sem que eu sinta amor e gratidão por eles.

Minhas pernas e meus braços já estiveram em melhor forma, mas como não perdoar umas celulites aqui e uma flacidez ali? Quando esses braços são a fortaleza que o acolhe e proporciona a segurança de que você necessita? Quando essas pernas sustentam o corpo que o embala, e meus pés caminham com você para onde for? Como não respeitar minha barriga, quando a pele e os músculos dela se distenderam de modo plácido e generoso para que lá dentro você pudesse crescer, seguro e confortável?

Sabe, meu amor, eu nunca gostei muito da minha voz, e me arrepiava de horror ao ouvi-la reproduzida em algum dispositivo de áudio. Mas hoje não posso deixar de simpatizar com os tons produzidos por minhas cordas vocais, pois são eles que instantaneamente acalmam você ao me ouvir.

Considero abençoadas as mãos que o acalentam e os lábios que curam suas dores com um beijo. Os olhos que registram em minha memória os momentos mais doces, que nenhuma lente poderá captar. Os ouvidos que recebem os sons das suas risadinhas, e que também me alertam mesmo de longe quando você precisa de mim.

Nesse ano brotaram em meu rosto novas rugas e marcas de expressão. Ainda no puerpério surgiram duas pequenas linhas verticais entre minhas sobrancelhas, resultantes de um movimento dos músculos usados para chorar. Eles nunca haviam sido utilizados com tamanha frequência em tão pouco tempo. Mas surgiu também um par de marcas ao lado dos lábios, vincos causados pela repetição de sorrisos largos. Essas marcas dizem muito sobre o início da minha jornada como mãe: eu jamais havia sentido com tanta intensidade. Chorei e sorri como nunca antes.

Com o passar das semanas, esse corpo que gerou você foi ajustando a dosagem dos hormônios, e as emoções, embora continuem intensas, já não me fazem chorar tanto assim. Mas os vincos ao lado dos lábios tendem a ficar muito mais profundos, porque você me dá razões para sorrir o tempo todo.

“Sarar” significa curar, dar saúde a quem está doente. Então não tenho dúvidas: a sua chegada me deixou mais sarada do que nunca fui! Curou-me de inseguranças e de cobranças desleais, libertou-me da angústia de não me encaixar em padrões inalcançáveis. Deu-me saúde para enxergar beleza em cada traço meu. E, se faltava algo para me fazer crer que eu sou linda, as pessoas me dizem que você se parece comigo. Prova incontestável da minha beleza é ser a forma que moldou você, a criaturinha mais perfeita sobre a qual meus olhos já repousaram.
Gratidão, filho.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra e foi publicado originalmente em seu perfil pessoal do Facebook em 26/12/2016 à 0h37, enquanto o bebê dormia. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]

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