Sobre o dia das mães 

Filhote,
No dia das mães do ano passado, você ainda estava na minha barriga. Eu já amava você, mas não tinha noção do que era ser mãe de verdade – porque essa é uma noção que só se adquire na prática. Era um tempo em que as pessoas faziam todas as minhas vontades. Hoje algumas delas sequer me cumprimentam, interessadas exclusivamente em você, como se eu nem precisasse mais existir agora que já trouxe você ao mundo. E olha que existem outras mães que são muito mais invisibilizadas que eu.
Mas tudo bem, não estou carente de reconhecimento. Nós sabemos bem a mãe que sou para você. Todos os dias vejo em você os frutos da minha dedicação integral. Ser mãe é o trabalho mais intenso que já tive na vida, sem direito a férias, folga, final de semana, licença por doença. Nunca imaginei que seria capaz de trabalhar ao longo da madrugada e levantar de manhã para trabalhar mais. Eu não pensava que isso fosse possível. Um dos meus maiores temores sobre a maternidade era esse: não dar conta do cansaço, porque sempre amei dormir muito. E olha eu aqui, vivinha.
Hoje mesmo eu levantei depois de uma noite mal dormida, e em outros tempos isso seria motivo para mau humor. Mas a primeira das suas gracinhas me derrete, um sorriso seu renova minha energia e minha paciência. Tivemos um dia lindo, com seu papai, sua vovó Maria e seu tio Gabriel. Você andou comigo de jardineira puxada por um trator, de chalana e de carroça. Viu ovelha, galinha, ganso, avestruz e cavalo. Brincou, passeou e riu muito. Encontramos pessoas queridas. Eu amei o nosso dia. E amei presentear sua vovó (sabia que ela é minha mamãe?) com a sua presença e alegria.
Foi um dia feliz, que deixará boas lembranças. E foi também um dia de pensar e refletir muito sobre a maternidade. Pensar sobre como, mesmo com todos os meus privilégios (de classe, cor, de possuir uma rede de apoio, de ter o seu pai ao nosso lado e de contar com ele de verdade para tudo), a maternidade nem sempre é fácil, apesar de linda. 
Pensar sobre como seu pai é chamado de paizão se simplesmente dá uma volta com você no colo, enquanto eu dedico minha vida integralmente a você e não sou reconhecida. Abri mão da carreira, vejo oportunidades importantes irem embora porque fiz uma escolha (e não me arrependo) de cuidar pessoalmente de você nesses seus primeiros anos. Trato você com todo amor e respeito, cuido da nossa alimentação (da minha para poder amamentar você), vigio seus passinhos, cada dia vou além do que eu mesma imaginava ser capaz. E posso contar nos dedos as pessoas que reconhecem isso sem achar que é só minha obrigação. Fora as pessoas que leem isso e vêm dizer “mas meu marido é um paizão sim” e eu só posso entender que lhes falta a capacidade de interpretação de texto.
Hoje, em pleno dia das mães, em situações diversas eu escutei mães serem julgadas. Uma pessoa falava da “mãe louca” que levou o bebê para trilhar com ela o Caminho de Santiago de Compostela. Que também seria condenada se deixasse o bebê em casa para ir. Parece que mulheres que se tornaram mães são obrigadas a abdicar de sonhos e projetos, já que não podem levá-los adiante com ou sem os filhos. Mas um pai seria julgado na mesma intensidade se deixasse o bebê em casa para fazer o caminho de Santiago? E se o levasse junto, não seria um paizão? 
Depois ouvi sobre uma mulher que abandonou os filhos com o pai para viver com outro homem. O pobre pai teve que deixar os filhos num lar para crianças, pois como iria cuidar de crianças tendo que trabalhar? Ora, todos os dias incontáveis crianças são abandonadas pelos pais com suas mães, e estas precisam trabalhar para sustentá-los, e nem por isso os deixam em lares para crianças. Mas a mãe TEM QUE dar conta, afinal ela é uma mulher. 
Sabe, filho, ser mãe é a melhor coisa da minha vida, mas tem dias que eu só queria ser um pai. E dormir como um pai.
Meu amor, sou muito feliz por ser sua mãe, não troco por nada no mundo a realização que essa missão tem me proporcionado. Sou grata por você ter me escolhido, e agradeço também pela oportunidade de crescer e aprender com você a cada dia. De ser uma pessoa melhor para lhe servir de exemplo. 
E ainda assim desejo que a maternidade possa ser mais leve para todas as mães. Que a maternidade não precise ser a imposição de renúncias e sacrifícios além dos necessários. Que em vez do julgamento, possamos um dia receber de presente mais empatia, reconhecimento, respeito e apoio. De minha parte, farei tudo que puder para ensinar você a oferecer esse presente a todas as mães que conhecer ao longo de sua vida. 
Agora eu vou deitar, já que você dormiu há duas horas (depois de muito mamá e embalo), e desde então eu: tirei do freezer o peixe que vou preparar amanhã, coloquei o feijão de molho, resolvi alguns preparativos para sua festa de aniversário semana que vem, comi uma coisinha, e vim aqui escrever esse texto. Daqui a pouco você já me chama querendo mamar e eu nem dormi ainda. Preciso registrar essas coisas e contar para você um dia, para você ser do time que sabe valorizar o trabalho de uma mãe.
Amo você!
Mamãe

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