Projeto 365 dias: dia 07 – Solar do Barão ou “De traidor a herói da pátria – Resgate da memória do Barão do Serro Azul”

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Solar do Barão – Fotografia do site da Fundação Cultural de Curitiba

O texto é longo, mas justifico-me por tratar-se de uma história apaixonante. Aliás, como seria mais fácil – ao menos para mim – aprender sobre a História (com letra maiúscula) se, em vez de apresentada como uma série de datas e nomes de generais, ela fosse sempre contada assim: como a história da vida de pessoas de carne e osso, das escolhas que fizeram e as consequências que sofreram.

Hoje visitei um lugar ao qual não ia há muitos anos: o Solar do Barão, localizado na Rua Presidente Cavalcanti, no Centro de Curitiba. A visita já vale pelo simples fato de estar entre as paredes que abrigaram um grande homem, que teve participação relevantíssima na história do Paraná e de sua capital, e – por que não? – do próprio país. Além disso, o local abriga um complexo cultural que reúne diversas unidades relacionadas às artes gráficas: o Museu da Fotografia, o Museu da Gravura, o Museu do Cartaz e a Gibiteca. Várias exposições interessantes acontecem por lá.

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Gibiteca de Curitiba.
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Exposição no Museu da Gravura de Curitiba, um dos espaços culturais abrigados no Solar do Barão.

Não é um castelo medieval na Europa, mas a história que o Solar retrata tem algo de muito especial: ela é nossa. Vamos viajar ao passado então? Não sou historiadora, e sei que a História comporta diferentes visões para os mesmos fatos. Convido quem desejar a contribuir com outros fatos e pontos de vista e, especialmente, a me alertar caso haja algum equívoco no texto a seguir.

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Detalhe do Solar do Barão.

O Solar começou a ser construído em 1880, para servir de residência ao parnanguara Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul. O projeto do palacete de três pavimentos é de autoria dos construtores italianos Ângelo Vendramin e Batista Casagrande, que idealizaram o edifício como um exemplar do ecletismo, estilo que mistura tendências arquitetônicas de períodos diversos.

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À direita, o Solar do Barão, construído em estilo eclético em 1880. À esquerda, o Solar da Baronesa, construído em 1894, seguindo o padrão estético do prédio principal.

A imponência da construção expressava o status social do Barão, importante empresário, político e intelectual da cidade. Fundador do engenho de erva-mate Tibagi, no bairro Batel, investiu também no setor madeireiro e foi um dos fundadores da Associação Comercial do Paraná. Visionário, absorvia as inovações tecnológicas que surgiam e não eram assimiladas pelas demais empresas ervateiras. Foi presidente e vice-presidente da Câmara Municipal de Curitiba, deputado provincial, suplente de juiz em Antonina, assessor do presidente Taunay. Dentre outras contribuições sociais da época, colaborou com as obras do Passeio Público, fundou a Imprensa Paranaense e foi fundador benemérito e primeiro presidente do Clube Curitibano. Integrou a comissão que recepcionou D. Pedro II, em visita a Curitiba, em 1880, ano em que recebeu o título de Barão do Serro Azul. Abolicionista convicto, comandou a campanha de arrecadação de fundos para a abolição da escravatura no município. São tão numerosos os seus feitos na política e na atividade empresarial que é preciso esclarecer que os aqui elencados representam apenas uma modesta parte de sua biografia. Aos 26 anos de idade, casou-se com sua prima Maria José Correia, conhecida como Nhá Coca, mulher culta e inteligente com quem teve três filhos: Efigênia, Maria Clara e Ildefonso.

Entre os anos de 1893 e 1895, o sul do Brasil serviu de cenário para os violentos combates da Revolução Federalista, iniciada no Rio Grande do Sul, travada entre os federalistas (maragatos) e os republicanos (chimangos ou pica-paus). Resumidamente, os federalistas, que queriam uma maior autonomia do Rio Grande do Sul, defendiam a criação de um regime parlamentarista, nos moldes do que existiu no Segundo Reinado, iniciado com a declaração de maioridade de Pedro de Alcântara. Os republicanos, por outro lado, defendiam um presidencialismo forte e centralizador, no estilo do Marechal Floriano Peixoto, que assumiu o governo após a renúncia do primeiro presidente da República, Marechal Deodoro da Fonseca.

Extrapolando as fronteiras gaúchas e avançando por Santa Catarina, em janeiro de 1984, os revoltosos decidiram invadir o Paraná, levantando a bandeira pela derrubada do presidente Marechal Floriano do poder. Pelo caminho, contaram com a adesão de parte da população local, especialmente os trabalhadores rurais, insatisfeitos com as condições de trabalho no campo.

Ao saber da proximidade dos maragatos, o então presidente do estado, Xavier da Silva, alegando problemas de saúde, pediu licença do cargo. Vicente Machado, o vice em exercício, transferiu a capital para Castro, sua cidade natal, e seguiu para lá imediatamente. Por fim, o general Pego, comandante militar da cidade, fugiu abandonando trens carregados de material bélico.

Abandonada por suas autoridades e pelas tropas legalistas, Curitiba passou a ser governada pelo Barão do Serro Azul, que assumiu o controle de uma Junta Governativa com o objetivo de preservar a ordem e garantir a integridade das famílias que ficaram na cidade. A passagem dos maragatos pela Lapa havia deixado, ao longo de 26 dias de sangrenta batalha, um saldo muito grande de mortos, e o Barão não queria que a tragédia se repetisse na capital paranaense.

Convocado pelos cidadãos, coube ao Barão fazer um acordo com os revolucionários para proteger a população de violências, saques e estupros. A Junta Governativa de Curitiba transformou-se em “Comissão para Lançamento do Empréstimo de Guerra”, arrecadando fundos para negociar a paz com Gumercindo Saraiva, líder dos maragatos.

Em maio de 1894, o Barão escreveria a seu irmão: “tenho consciência de que tudo quanto pratiquei, logo que o nosso Estado foi invadido pelas forças revolucionárias, somente obedeceu aos mais nobres e puros sentimentos. (…) Os tempos são de provações e eu a elas me subordino pacientemente”. Sua posição pacificadora, no entanto, rendeu-lhe o título de traidor entre os republicanos.

Quando os maragatos perderam a batalha, teve início a perseguição aos que contribuíram com a Revolução. Os quartéis, teatros e até escolas de Curitiba ficaram lotadas de presos, e, apesar da condenação pública, várias pessoas foram fuziladas.

O Barão e cinco companheiros foram presos: Prisciliano Correia, José Lourenço Schleder, José Joaquim Ferreira de Moura, Rodrigo de Matos Guedes e Balbino de Mendonça. Após alguns dias, em 20 de maio, às nove da noite, esses prisioneiros foram conduzidos à Estação Ferroviária, sob a alegação de que seriam levados ao Rio de Janeiro para seu julgamento pelo Conselho Militar. Infelizmente, não era esse o destino que seus algozes de fato lhes reservavam.

O trem parou no quilômetro 65, no Pico do Diabo, e os homens passaram a ser arrastados para fora. Mato Guedes atirou-se pela janela do trem, mas recebeu uma descarga da fuzilaria e rolou pelo precipício. Balbino de Mendonça agarrau-se ao vagão e teve os braços quebrados a coronhadas, sendo abatido a tiros de revólver. Um tiro na coxa da perna direita colocou o Barão de joelhos e ele propôs dividir sua fortuna com os oficiais da escolta se fosse poupado, mas foi fuzilado a seguir, junto com os companheiros restantes.

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Quadro histórico sobre a Revolução Federalista, concebido por Ângelo Agostini, destacando o fuzilamento do Barão do Serro Azul. Reprodução da Revista Carioca Dom Quixote, publicada em 1895. Coleção: Newton Carneiro.

Passaram-se alguns dias até que a notícia da execução chegasse a Curitiba. Conforme consta da emocionante carta da Baronesa do Serro Azul, enviada ao Barão de Ladário (cuja leitura na íntegra eu recomendo vivamente):

“Às esposas aflitas que procuravam o comandante militar para ouvir o desmentido da nova inverossímil, afirmava o general Everton Quadros, com sorrisos nos lábios e com mostras de sinceridade através das quais era impossível perceber um resquício de remorso, afirmava sob sua palavra de honra que os presos haviam seguido para o Rio. E quando a alma da população inteira foi se enchendo de opressão horrível ante as versões que corriam como um clamor de dies irae, deixando por sobre a Capital do Paraná a sombra pavorosa da agonia e do luto – o general, cuja espada viera restaurar a Lei, mandava que as bandas militares, com o som da música festiva, dispersassem os agouros que suspendiam a vida de um povo, como quem a gritos estridentes espanta uma corvada que fareja matanças! Ao mesmo tempo, senhor, fazia-se declarar às famílias das vítimas que não podiam cerrar as portas nem dar outras demonstrações de luto…”. 

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Trecho da carta da Baronesa do Serro Azul ao Barão de Ladário.

O coronel Ordine, junto com seis homens, foi ao local cinco dias após o fuzilamento, a fim de enterrar os corpos abandonados pela escolta, os quais encontrou mexidos, sem joias e alguns, inclusive, sem sapatos. Feito o reconhecimento dos mortos, os corpos do Barão e de seu amigo Prisciliano Corrêa foram enterrados à direita dos trilhos do trem, com a intenção de futuramente serem levados a Curitiba para um sepultamento mais respeitoso.

Um ano depois, a pedido da Baronesa, o coronel Ordine foi tratar com o comando do distrito militar e da polícia do estado a fim de trazer o corpo do Barão para ser sepultado em Curitiba. Como não havia registro oficial do fuzilamento, o pedido não foi recusado. Contudo, o diretor da Estrada de Ferro, Gastão Serjat, negou-se a liberar os cadáveres, que se encontravam em terras de sua propriedade.

Ordine contratou então o caboclo Joaquim Franco, conhecedor da Serra do Mar, para abrir uma picada em meio à mata fechada para conduzir a expedição clandestina que faria o resgate dos corpos. O caboclo morreu, picado por uma cobra, poucos quilômetros antes de terminar o serviço, que foi concluído por seus filhos.

Embora ameaçados pelos perigos da mata e correndo o risco de represálisas dos políticos de então, dez homens fizeram parte da corajosa expedição, que levou o nome de Amizade. A expedição partiu dia 2 de maio de 1895 e voltou com o corpo do Barão no dia 6. Prisci­liano foi resgatado depois porque, segundo documento da época, era muito grande. Os caixões haviam sido escondidos por Ordine numa Serraria, e de lá vieram para Curitiba com os dois corpos, ocultos em meio a 400 filetes de madeira com capim por cima, sendo levados ao Cemitério Municipal. A viúva finalmente conseguiu dar ao Barão o sepultamento digno que desejava.

Em 1894, para garantir os rendimentos da Baronesa, foi construída uma casa menor, ao lado do Solar do Barão, no terreno em que ficava o jardim, para servir de residência a ela e seus filhos. O Solar da Baronesa seguiu os mesmos princípios arquitetônicos do prédio principal, que passou a ser alugado. Entre 25/10/1902 e 06/1909, sediou a Loja Maçônica Grande Oriente do Paraná.

Em 1912, os imóveis foram incorporados à Fazenda Nacional e ocupados pelo Exército, passando a abrigar o quartel até 1973. Nesse ano, o Município negociou com o exército uma permuta desses bens com outro localizado no bairro Pinheirinho, para onde foi transferido o quartel. A Prefeitura contratou o arquiteto Cyro Corrêa de Oliveira Lyra, que, entre 1980 e 1983, coordenou o restauro do conjunto arquitetônico do Solar do Barão.

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Detalhe no teto de uma das salas do Solar do Barão.

O nome de Ildefonso Pereira Correia deixou de ser pronunciado por quarenta e quatro anos, tido como traidor da pátria. Seus atos foram banidos da história oficial do Paraná, documentos foram suprimidos e referências apagadas. O resgate de sua memória teve início entre 1940 e 1950, quando sua vida começou a ser investigada.

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Detalhe do Solar do Barão.

Em 1942, foi publicada a biografia “O Barão de Serro Azul”, de Leôncio Correia. Em 1973, publicou-se “A Última viagem do Barão do Serro Azul”, de autoria de Túlio Vargas. Com base nessa obra, foi produzido o filme “O Preço da Paz”, lançado em 2003.

A Lei nº 11.863 de 2008 inscreveu o nome de Ildefonso Pereira Correia, o Barão de Serro Azul, no Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Liberdade e da Democracia, em Brasília. Foi o único paranaense, até hoje, a receber essa honraria.

Solar do Barão
Endereço: Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 533 – Centro

Contato: (41) 3321-3367

Agendamento de visita guiada: (41) 3321-3275

Horário de funcionamento:
9h às 12h e 13h às 18 (2ª a 6ª feira) e 12h às 18h (sábado, domingo e feriado)

Saiba mais:

Conheça a história do Solar no site da Fundação Cultural de Curitiba.

Artigo: Nobre que deu vida pela paz tem heroísmo reconhecido, publicado em 31/01/2009 na Gazeta do Povo.

Artigo: Os ossos do Barão, publicado em 28/08/2010 na Gazeta do Povo.

Leia a íntegra da Carta da Baronesa do Serro Azul ao Barão do Ladário

Consulte o site da Fundação Cultural de Curitiba para conhecer os cursos que ela oferece. Alguns deles acontecem no Solar do Barão.

Biografia do Barão pela Federação Espírita do Paraná

Biografia do Barão na Wikipedia

As informações desse texto foram coletadas no Solar e nas fontes citadas acima. Todas as fotografias que ilustram esse texto são de minha autoria, exceto a primeira, extraída do site da Fundação Cultural de Curitiba. Para reproduzir, favor citar a fonte.

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TED do dia: o homem que revolucionou o absorvente na Índia

Arunachalam Muruganantham, o homem que revolucionou o absorvente higiênico na Índia
Arunachalam Muruganantham, o homem que revolucionou o absorvente higiênico na Índia

Tenho convivido por toda minha vida com mulheres cultas, educadas, com boa situação financeira, independentes e cheias de opinião. E mesmo entre mulheres assim, menstruação é um tema tabu. Já vi muitas amigas torcerem o nariz para a mera menção do assunto. A maior parte tem asco até de admitir que passa todos os meses por esse processo absolutamente natural.

Imagine então como é na Índia, e pior, na zona rural indiana. Lá, a menstruação não é apenas assunto proibido, é motivo para que as meninas faltem às aulas e provas, e mulheres deixem de trabalhar durante o período menstrual. Naturalmente, isso gera um impacto terrível na vida dessas meninas e mulheres, inclusive em seu orçamento familiar. Há também o aspecto cultural: enquanto estão menstruadas, as mulheres não podem frequentar o templo ou preparar comida.

Segundo o The Times of India, apenas 12% das 355 milhões de mulheres que menstruam usam absorventes higiênicos. As demais utilizam trapos, folhas, cascas, serragem, qualquer coisa no lugar do absorvente higiênico, cujo preço é alto demais para permitir esse “luxo”.

Ao se deparar com essa realidade, surpreendentemente foi um homem que resolveu dedicar anos de sua vida (quinze, para ser mais exata) para desenvolver uma alternativa que atendesse às mulheres pobres da Índia. De acordo com Arunachalam Muruganantham, “as mulheres que usam panos com frequência têm vergonha de deixar que sequem ao sol. Com isso, os panos não são desinfetados. Aproximadamente 70% das doenças reprodutivas na Índia são causadas por falta de higiene menstrual. Isso também pode afetar a mortalidade materna.”

Veja o vídeo (legendas em português disponíveis) para se encantar com a história e conhecer todas as dificuldades e situações inusitadas que Muruga (como ele próprio se chama) precisou enfrentar em sua jornada, incluindo o preconceito e o abandono familiar. E tudo isso sem nenhuma motivação financeira! Perguntado sobre seus motivos, ele explica: “Fui criado por mãe solteira. Eu vi como minha mãe lutou para me criar, então eu quis fazer isto para ajudar outras mulheres a ganhar a vida para sustentar suas famílias. Se você empodera uma mãe, empodera um país.”

Com vocês, Arunachalam Muruganantham!

Leia mais aqui.

1860: Carta de uma senhora a seu ex-escravo, e a resposta indignada de um homem livre.

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Em 1834, Jarm Logue, então com 21 anos (a foto acima é de alguns anos mais tarde), conseguiu roubar o cavalo de seu mestre e escapar da vida de escravidão em que havia nascido. Infelizmente, sua mãe, irmão e irmã ficaram para trás. 26 anos depois, ele havia se estabelecido em Nova York, aberto inúmeras escolas para crianças negras, começado a sua própria família e se tornado um reverendo e famoso abolicionista, além de autor de uma autobiografia, quando recebeu uma carta da esposa de seu antigo dono,  exigindo US$ 1000. Essa carta, e sua resposta furiosa, podem ser lidas abaixo. Nota: depois de escapar da escravidão, Logue mudou seu nome para Jermain Wesley Loguen. (Fonte: A escravidão nos Estados Unidos; Imagem: JW Loguen, via.)

Maury Co., Estado do Tennessee,

20 de fevereiro de 1860.

Para Jarm:

​​- Tomo  minha caneta para escrever-lhe algumas linhas, para que você saiba o quanto estamos bem. Eu estou aleijada, mas eu ainda consigo me movimentar. O resto da família está bem. Cherry está tão bem como de costume. Escrevo-lhe estas linhas para que você saiba a situação em que estamos, em parte em consequência de sua fuga e roubo da Old Rock, nossa bela égua. Embora tenhamos conseguido a égua de volta, ela nunca mais teve o mesmo valor depois de você levá-la; e como agora necessito de alguns fundos, eu decidi vender você; e eu recebi uma oferta por você, mas não considerei adequado aceitá-la. Se você me enviar mil dólares e pagar pela velha égua, eu vou desistir de todas as queixas que tenho contra você. Escreva-me logo que você ler essas linhas, e diga se vai aceitar minha proposta. Em consequência de sua fuga, tivemos que vender Abe e Ann e doze hectares de terra; e eu quero que você me envie o dinheiro para que eu possa resgatar a terra vendida, e no recebimento da quantia de dinheiro acima nomeada, vou enviar-lhe o seu recibo de venda. Se você não cumprir com o meu pedido, eu vou vendê-lo para outra pessoa, e você pode estar certo de que não vai demorar muito tempo para as coisas mudarem para você. Escreva-me, logo que você receber essas linhas. Dirija sua carta a Bigbyville, Maury County, Tennessee. É melhor atender ao meu pedido.

Eu soube que você é um pregador. Como o povo do sul é tão ruim, é melhor vir e pregar para seus velhos conhecidos. Eu gostaria de saber se você lê a Bíblia. Se sim, você pode dizer o que será do ladrão se ele não se arrepender? E, se a um cego guiar outro cego, qual será a consequência? Penso que seja desnecessário dizer muito mais que isso por ora. Uma só palavra é suficiente para o sábio. Você sabe onde o mentiroso tem sua parte. Você sabe que nós criamos você como criamos nossos próprios filhos; que nunca foi abusado, e que, pouco antes de fugir, quando o mestre perguntou se você gostaria de ser vendido, você disse que não iria deixá-lo por ninguém.

Sarah Logue.

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Syracuse, NY, 28 de março de 1860.

MRS. SARAH LOGUE:

– Sua carta de 20 de Fevereiro foi devidamente recebida, e agradeço-lhe por ela. Um longo tempo passou desde que eu ouvi de minha pobre e velha mãe, e fico feliz em saber que ela ainda está viva, e, como você diz, “tão bem como de costume”. O que isso significa, eu não sei. Gostaria que você tivesse dito mais sobre ela.

Você é uma mulher, mas, se tivesse o coração de uma mulher, você nunca teria me insultado dizendo que vendeu meus únicos remanescentes irmão e irmã, porque eu não me submeti ao seu poder de converter-me em dinheiro.

Você diz que vendeu meu irmão e irmã, ABE e ANN, e 12 hectares de terra, porque eu fugi. Você tem a inefável maldade de me pedir para voltar a ser sua miserável propriedade, ou em lugar enviar-lhe 1.000 dólares para que você possa resgatar a terra , mas não para resgatar meus pobres irmão e irmã! Se fosse para lhe enviar o dinheiro seria para reaver meu irmão e minha irmã, e não para você conseguir terra. Você diz que está aleijada, e sem dúvida você diz isso para que eu sinta pena, pois você sabe que eu sempre fui suscetível nessa direção. Eu sinto muito por você, do fundo do meu coração. Todavia, estou indignado além do que as palavras podem expressar, que você possa ser tão cruel a ponto de rasgar em pedaços os corações que eu tanto amo; que você esteja disposta a nos empalar e crucificar sem qualquer compaixão, por seu pobre  ou perna. Mulher miserável! Saiba que eu valorizo ​​minha liberdade, para não falar de minha mãe, irmãos e irmãs, mais do que todo o seu corpo; mais, na verdade, do que a minha própria vida; mais do que todas as vidas de todos os donos de escravos e tiranos que existem sob o Céu.

Você diz que recebeu ofertas para me comprarem, e que você me venderá se eu não lhe enviar US$ 1000, e no mesmo fôlego e quase na mesma frase, diz: “você sabe que nós criamos você como criamos nossos próprios filhos”. Mulher, você criou seus próprios filhos para o mercado? Você os criou para o pelourinho? Você os criou para serem conduzidos acorrentados em fileiras como animais? Onde estão os meus pobres irmãos e irmãs sangrando? Você pode dizer? Quem foi que os enviou a campos de açúcar e algodão, para serem chutados, algemados, chicoteados, gemerem e morrerem; onde nenhum parente pudesse ouvir seus gemidos, ou sentir compaixão perante seu leito de morte, ou acompanhar seu funeral? Mulher miserável! Você diz que você não fez isso? Então eu respondo, seu marido fez, e você aprovou, e a carta que você me enviou mostra que seu coração aprovou tudo. Você devia se envergonhar.

Mas, por falar nisso, onde está o seu marido? Você não fala dele. Deduzo, portanto, que ele está morto; que ele foi pagar sua grande conta, com todos os seus pecados contra a minha pobre família sobre sua cabeça. Pobre homem! Foi encontrar os espíritos do meu pobre povo, humilhado e assassinado, em um mundo onde a Liberdade e a Justiça são MESTRES.

Mas você diz que eu sou um ladrão, porque eu levei a velha égua comigo. Você não entende que eu tinha mais direito sobre a velha égua, como você a chama, que MANNASSETH LOGUE teve sobre mim? É um pecado maior eu roubar o seu cavalo, que ele me roubar do berço da minha mãe? Se vocês acreditam que eu perdi todos os meus direitos pelo que fiz, não é certo deduzir que vocês perderam todos os seus direitos sobre mim pelo que fizeram? Você precisa aprender que os direitos humanos são mútuos e recíprocos, e que se você tomar a minha liberdade e vida, você perde o seu próprio direito à liberdade e à vida. Diante de Deus e do Paraíso, existe alguma lei para um homem que não serve para todos os outros homens? 

Se você ou qualquer outro especulador sobre o meu corpo e os direitos quiser saber o quanto valorizo os meus direitos, terão que vir até aqui e impor as mãos sobre mim para me escravizar. Você acha que me aterroriza apresentando a alternativa de dar o meu dinheiro a você ou entregar o meu corpo para a escravidão? Então saiba que recebi sua oferta com desprezo indizível. A proposta é uma afronta e um insulto. Eu não vou ceder nem mesmo um fio de cabelo. Eu não vou respirar sequer um fôlego mais curto para me salvar de suas perseguições. Eu vivo em meio a um povo livre, que, agradeço a Deus, simpatiza com os meus direitos e os direitos da humanidade; e se os seus emissários e vendedores vierem aqui para me re-escravizar, e escaparem do vigor intrépido do meu próprio braço direito, eu confio que meus fortes e bravos amigos, nessa Cidade e Estado, serão os meus salvadores e vingadores.

Atenciosamente,

JW Loguen

Leia aqui o original. A tradução livre é minha.

Indígena do Alto Xingu defende dissertação de mestrado


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Makaulaka Mehináku Awetí tem 34 anos e seu povo Mehináku vive no Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso. Em maio desse ano, Mekalauka defendeu sua tese de mestrado na UnB (Universidade de Brasília), sobre a estrutura linguística do idioma que leva o mesmo nome de sua etnia. Seu trabalho aprofunda a descrição gramatical da língua, que também está presente na região Norte do Brasil e em países como Bolívia, Peru e Venezuela.

O interesse de  Makaulaka pela escrita do “povo branco” começou na adolescência, quando teve contato com outros índios que sabiam ler e escrever em português. Na falta de lápis e papel, “recolhia pilhas velhas, tirava-lhes o toco preto e ia apontando para colocar na ponta de um pauzinho para ficar igual a um lápis”, ele conta. Usava esse instrumento para reproduzir em madeira as palavras que encontrava em embalagens usadas.

Aos 15 anos, soube de um curso de português que iria acontecer em um povoado. Como estava em período de reclusão, prática recorrente entre indígenas na adolescência, o pai o proibiu de ir à escola. Makaulaka decidiu então fugir da aldeia para perseguir seu sonho. Depois do curso, retornou ao convívio da família. Com a anuência dos pais, passou a frequentar a escola e ingressou na graduação em Ciências Sociais na Universidade Estadual do Mato Grosso.

“Lembrar essa história é viajar no tempo, recordar todo sofrimento, hoje superado, a humilhação que me fez aprender a ser humilde e respeitar os outros; aprender a lidar com atitudes ruins com bons argumentos. É o que me deu mais motivo de seguir em frente sempre com inteligência para não agredir as pessoas com minhas palavras grosseiras”, escreve Makaulaka na introdução do trabalho.

“Pensei em voltar para minha vida de tempos atrás, de viver a vida inteiramente de meu povo, viver isolado do mundo branco, mas não será mais possível, não posso desperdiçar tudo que conquistei na vida, apoio, confiança e respeito, que significa o reconhecimento por parte daqueles que conhecem quem sou eu”, completa Makaulaka, hoje professor em sua aldeia no Alto Xingu.

No dia de defender sua pesquisa, Makaulaka acordou antes das 6 da manhã. Ao lado da mulher e dos filhos, pintou o corpo de urucum e jenipapo, colocou os ornamentos usados em celebrações especiais indígenas e se dirigiu à UnB para concluir uma das etapas mais importantes da sua vida.

A conquista de Makaulaka vai além do benefício (possibilitado pelo sistema de cotas) de promover a diversidade no curso superior – é também um avanço histórico. “As línguas indígenas, de modo geral, estão sob análise dos linguistas não indígenas. Ser pesquisador da minha língua coloca o índio como protagonista de sua história”, define o agora mestre.

Na opinião da orientadora do projeto de Makaulaka e representante do Laboratório de Línguas e Literaturas Indígenas (Lali/IL) da UnB, Ana Suelly Arruda Câmara Cabral, a importância de aproximar os indígenas da universidade supera o rico intercâmbio de culturas e de pontos de vista. “Eles se encantam ao entender com o olhar de linguista, as estruturas de sua língua e as funções que cada elemento que a constitui tem ao expressar sentimentos, emoções, pensamento e cultura de um modo em geral”, explica.

Fundado em 1999, o Lali esperou 10 anos até a primeira defesa de dissertação de mestrado de um indígena. Em 2009, Edílson Baniwa defendeu projeto sobre o idioma nhegatu, do povo baniwa, que vive no Alto Solimões, no Amazonas. Desde então, há uma seleção especial, na qual os índios não precisam fazer provas de inglês, pois o português já é a segunda língua deles.

Fontes:

http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=8600

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2014/06/04/interna_cidadesdf,430797/indio-supera-adversidades-e-preconceitos-e-conclui-mestrado-na-unb.shtml

Se alguém conseguiu fazer, eu também posso.

Se a segunda-feira é sempre um suplício pra você, está na hora de fazer alguma coisa além de reclamar. Se inspiração é o que falta, trago hoje o exemplo de um menino malauí que contornou a falta de recursos e, contra todas as probabilidades, salvou sua família de um destino infeliz. 6a00df3521152d88340120a5a3b4aa970b-500wi William Kamkwamba nasceu em uma família de camponeses no Malawi. O país situa-se entre os mais pobres do mundo. Aos 14 anos de idade, William viu a Vila de Wimbe, onde mora, passar por uma grande seca, causando enormes prejuízos aos lavradores e trazendo fome a todo o país. William, seus pais e suas seis irmãs faziam apenas uma refeição diária, antes de dormir. Cavavam o solo para achar raízes e cascas de banana para forrar o estômago. Desmaiavam com frequência. Muitos moradores da região morreram de inanição.

A escola de William cobrava uma taxa anual de 80 dólares que, evidentemente, seu pai não conseguiu pagar naquele ano. O menino passou a frequentar a biblioteca da escola, com o objetivo de estudar por conta própria para manter-se no mesmo nível dos amigos que continuaram na escola. Eram apenas três estantes de livros doados pelos EUA, Reino Unido, Zâmbia e Zimbábue. “Comecei a ler livros de ciência, e isso mudou minha vida”, disse William. Ele não sabia quase nada de inglês, e usava as figuras e diagramas nos livros de física para interpretar as palavras ao redor.

O livro “Explaining Physics” ensinou a William o funcionamento de motores e geradores. Outro livro, chamado “Using energy”, tinha a foto de um moinho de vento na capa, e explicava que moinhos podem bombear água e gerar eletricidade. William concluiu que seu pai poderia irrigar a plantação, aumentar a colheita e eles nunca mais passariam fome. Foi assim que ele decidiu construir um moinho. Não havia instruções, mas William sabia que se um homem havia construído no livro, ele também conseguiria.

Foi num ferro-velho que William buscou os materiais para construir sua máquina. As pessoas riam dele quando passava carregando sucata. Diziam que estava louco ou usando drogas. Com um quadro de bicicleta, canos de PVC, roldanas, um ventilador de trator, amortecedor e outras peças enferrujadas, construiu seu primeiro moinho, capaz de gerar 12 watts de eletricidade – suficiente para acender uma única lâmpada.

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Mais tarde, um primo de William encontrou uma bateria de carro na beira da estrada. Deram uma carga nela e conseguiram energia para ligar quatro lâmpadas e dois rádios em sua casa. As pessoas da vizinhança faziam fila para carregar seus telefones celulares na casa de William. Os aparelhos são baratos e populares na África, mas há muitos lugares aos quais a eletricidade não chega. Algumas lojas cobram das pessoas para carregarem seus celulares, e o moinho de William fornecia energia gratuita.

A história de sucesso se popularizou ao ponto de William ser convidado a uma conferência do TED (Technology, Entertainment, Design), uma organização sem fins lucrativos que promove conferências anuais para divulgar boas ideias. O jovem, então com 19 anos, nunca havia saído de sua pequena vila, nunca havia usado um computador nem conhecia a internet. Falou com simplicidade diante de uma plateia encantada. Algumas pessoas o ajudaram a seguir com seus estudos: primeiro ele frequentou um colégio cristão na capital do Malawi, e depois foi admitido na African Leadership Academy, em Johannesburgo (África do Sul), uma escola que pretende treinar a próxima geração de líderes do continente. Há 200 estudantes de 42 países diferentes da África.

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William pretende fazer faculdade, talvez nos EUA, e voltar ao Malawi para encontrar maneiras de produzir energia barata e renovável nas vilas. Seus planos incluem a construção de bombas d’água de baixo custo e que possam ser operadas facilmente, além de colocar um moinho de vento em cada cidade do Malawi. “Em vez de esperar o governo levar eletricidade até as vilas por linhas de força, vamos construir moinhos de vento e gerá-la nós mesmos”, diz William. Dois anos depois de sua primeira apresentação, William voltou ao palco do TED para contar mais sobre sua trajetória e sobre seu invento. Ao final da palestra, ele deixou uma mensagem: “Eu gostaria de dizer uma coisa para todas as pessoas por aí afora, como eu, para os africanos e para os pobres que estão lutando pelos seus sonhos: confie em você e acredite. Não importa o que aconteça, não desista.”

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O que inspirou William a fazer algo diferente foi vislumbrar o futuro que lhe estava reservado se ele apenas se resignasse. Segundo ele, parar de estudar significava que ele seria camponês, e os camponeses não têm controle sobre a própria vida. Dependem do sol, da chuva, do preço das sementes e fertilizantes. Quando teve que abandonar a escola, William olhou para seu pai, para os campos ressecados e viu o resto de sua vida. Ele decidiu não aceitar aquele futuro, e tratou de fazer um melhor.

Veja a seguir a apresentação mais recente de William no TED. Eu vi essa manhã, e ela me encheu de esperança. Na sequência, veja também o vídeo da primeira palestra de William, dois anos antes.

 

 

Conheça ainda:

blog de William, onde você encontra, dentre outras coisas, um documentário contando a história dele.

O flickr de William, de onde vieram quase todas imagens que ilustram esse post (outras vieram do Google imagens).