Suicídio não tem graca, depressão não é piada

Aqui em casa meu filho vai aprender que:

– chinelo serve para calçar;

– cinta serve para segurar as calças;

– a palma da minha mão serve para várias coisas, mas agredi-lo não é uma delas.
Meu filho vai aprender que, não importa o momento da vida que ele esteja passando, ele sempre vai encontrar em mim e no pai dele ouvidos atentos aos seus problemas. Que ele sempre pode contar conosco. Que a colaboração nos afazeres da casa é tarefa de todos que vivem nela, mas que aqui não achamos que depressão e ansiedade são falta de “ter a pia” cheia de louça pra lavar. 
Vocês que estão fazendo piada e compartilhando o “desafio da preguiça azul” ou “desafio da havaiana azul”, insinuando que adolescentes capazes de se automutilar e até se suicidar são desocupados e merecem apanhar, apenas se perguntem se é a vocês que seus filhos recorrerão num momento de dificuldade. Apenas imaginem se, menosprezando os adolescentes e seus conflitos psicológicos (e eventuais transtornos), vocês serão o porto seguro deles. Ou se eles irão buscar apoio em outros adolescentes ainda mais desorientados. Se você acha que esses adolescentes estão só querendo atenção, ué, e quem no mundo não está? Quem não precisa de atenção, amor e cuidado? De onde vem essa ideia deturpada de que, quando alguém pede atenção, devemos virar as costas ou reagir com violência?
Como diz a minha mãe, filho não se perde na rua, mas sim dentro de casa. Perde-se na falta de diálogo, de atenção, de cuidado.
Em vez de ficar compartilhando piada sem graça ou alertando sobre o perigo de as crianças aceitarem balas de estranhos (a grande novidade de 1985), olhemos com atenção para os nossos filhos, para as crianças e jovens do nosso convívio. Sejamos seus confidentes, ofereçamos apoio livre de julgamentos, façamos que saibam que não estão sozinhos. 
A quem precisar de alguém que lhe ouça: EU ESTOU AQUI.
(Esse texto foi originalmente publicado por Oksana Guerra em seu perfil pessoal no Facebook em 19/04/2017, bem como na página Mama Neném em 20/04/2017)

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2016: uma retrospectiva para Ivan


Filho amado,

Está chegando ao fim o ano em que você nasceu. 2016 tem muitos críticos, mas não se assuste, meu amor: minha memória é boa o suficiente para lembrar que, no ano passado, quando você morava ainda na minha barriga, muitas pessoas clamavam “acaba logo, 2015”, e o mesmo aconteceu com os anos antecedentes.

E não será diferente com 2017. Eu sei que é estranho, filho, mas as pessoas conservam a crença de que a vida nesse planeta não está difícil por causa delas próprias, mas sim por culpa de uma folha no calendário.

Para mim, essa fatia de tempo que chamamos de 2016 ficará para sempre marcada como o ano em que tudo mudou porque você chegou.

Comecei o ano repleta de expectativas. Seu pai e eu viajamos, saímos muito, registramos em fotografias o crescimento da minha barriga. Ele me acompanhou às consultas médicas, exames e se emocionou sempre que sua imagem apareceu no ultrassom. Choramos juntos de alegria ao ouvir seu coração pela primeira vez.

Passei por momentos estressantes no trabalho. Com você morando em mim e os hormônios trabalhando intensamente, foi mais difícil que nunca ter que tolerar indelicadezas gratuitas. Várias vezes eu me escondia no banheiro para chorar, e achava que não ia suportar até o início da minha licença.

Eu me preparei muito para receber você, mas confesso que romantizei um tanto sua chegada. Cometi o erro de acreditar que, por ter planejado muito, estava tudo sob o meu controle. Mas nada estava. Descobri isso da pior forma, e conheci a maior dor do mundo: ver você sofrer.

Conhecemos de muito perto a maldade humana e o despreparo de uma profissional que jamais deveria trabalhar com pessoas, muito menos com mulheres em trabalho de parto. Fui abandonada, num momento de intensa dificuldade, por pessoas em quem confiei demais. Senti o maior medo que uma mãe pode sentir, o de perder um filho. Enfrentei com você a UTI, o julgamento, a culpa. Suportei dores terríveis para passar horas ao seu lado, sem cansar. Quis morrer cada vez que espetavam uma agulha em você. Tive vontade de tirá-lo da incubadora e correr com você nos braços até a nossa casa.

Os primeiros meses não foram fáceis. O puerpério foi sombrio. Minha confiança estava dilacerada e eu não conseguia ouvir a minha intuição. Tinha muito medo de errar, de falhar de novo com você. Cedi a conselhos equivocados e isso quase nos custou a sua amamentação. Lutei de forma ferrenha, empenhei todos os meus esforços porque eu não ia perder mais essa batalha. Vencemos!

Depois do seu terceiro mês, tudo mudou. A cada dia foi ficando mais fácil. Ou não. Os desafios continuaram, mas eu fiquei mais forte. Reencontrei a confiança perdida. Voltei a olhar no espelho e ver a mulher que você merece como mãe.

E é com muita alegria que tenho acompanhado o seu desenvolvimento. Como digo sempre no seu ouvido: você é muito amado, é lindo, inteligente, esperto, amoroso, carinhoso, corajoso, você é uma pessoa do bem. Traz luz no seu sorriso e paz no seu olhar. Você é especial.

Filho, sou grata a você por ter me ensinado mais sobre o amor nesse ano da sua chegada do que eu aprendi em toda minha vida. Meu amor por você é tão grande que transborda esse eixo mãe-filho: sobra muito para sentir por mim mesma, por seu pai, por sua avó e todos os nossos antepassados. Pelos amigos, pelas mulheres maravilhosas que formam uma rede de apoio fantástica. Sobra amor para dividir com todas as pessoas que estão por aqui desde sempre e com as que entraram em nossa vida nesse ano.

No mundo lá fora aconteceu um montão de coisas ruins. Golpes, guerras, crimes, muita maldade. Em alguns dias temos a impressão de que o mal está vencendo. Mas aqui dentro, graças a você, eu renovo minha fé no bem. Você é uma semente dele, meu amor. Você e seus amiguinhos, crianças amadas que estão sendo criadas de um jeito diferente, com amor e respeito, com potencial para trazer a esse mundo um pouco mais de luz.

Com você por aqui, só posso agradecer por esse ano em nossas vidas, e tenho certeza de que 2017 será um ano ainda mais incrível para nós.

Amo você, filhote!

Mamãe

Do que é feito o amor

Engana-se quem pensa que o amor é feito de palavras bonitas. O amor é feito de olhares que dispensam explicações. De compreensões. De silêncios confortáveis e gestos de carinho.

O amor não requer manifestos contundentes e declarações exuberantes. Ele é feito de delicadezas. Sorrisos ao café-da-manhã, beijos de boa-noite, um copo d’água que não precisou ser pedido. Mãos dadas no sofá, cuidados na doença, conforto na tristeza.

O amor não nasce da sedução, do deslumbramento e da fascinação. A matéria-prima do amor é a verdade.

O amor não é uma promessa. Ele é presença.

O amor é feito de noites de sábado e de domingos de sol. É feito de jantares românticos em datas despretensiosas, mas também de manhãs chuvosas de segunda-feira.

O amor não é feito de opiniões sempre idênticas. Ele é feito de respeito às diferenças. E, apesar delas, de afinidade.

O amor não é uma revelação, ele é uma construção. Não é feito por pessoas infalíveis, mas por pessoas que perdoam. O amor não é feito de dor, mas quem ama não está imune a ela.

O amor tem algo de divino. E também tem um pouco de instinto.

Amor não é feito de romance, mas eles podem andar juntos. Amor às vezes é feito de amizade. Outras vezes, contém atração. Tem amor que é feito de infinito, e recebe o nome de “materno”.

O amor não é feito de arrebatamento, e sim de brandura, calor e aconchego. De incentivo, apoio e bem-querer.  De confiança e de paz.

O amor é feito de tudo que aproxima, mas não aprisiona.

[Escrevi esse texto em 10/02/2015 e por alguma razão não o publiquei. Provavelmente estava esperando uma ideia de não veio para finalizar, mas olhando agora achei que está bom assim. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a minha prévia autorização]

A avó que eu queria ter

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Minha avó Eugênia faleceu quando eu tinha apenas um ano de idade. Até então era ela quem cuidava de mim, para que minha mãe pudesse trabalhar e nos sustentar. Nunca conheci minha avó paterna. Na adolescência, adotei e fui adotada pela avó do meu irmão, que me amava como sua neta mais velha. E ela também partiu cedo demais, poucos anos depois.

Penso que ter uma avó está entre as melhores coisas que podem acontecer a alguém. Sempre que posso eu me aproveito das nonnas alheias, bebo de sua sabedoria, repouso em seus abraços carinhosos. E hoje, conversando com amigas sobre a casa da minha mãe, notei que meu bebê vai ter a avó que eu sempre sonhei pra mim.

Percebi que a casinha dela vinha há tempos sendo cuidadosamente preparada para se transformar naquele refúgio de conforto e amor onde os netos são acalentados. Uma casa simples e acolhedora. Com uma gata do lado de dentro sonhando em atacar os passarinhos, e uma cachorra babona no quintal. Os passarinhos não aparecem só para provocar a gata: eles vêm porque sempre tem água e frutinhas para eles. Tem também muita flor, ervas frescas para um chazinho e para temperar as delícias preparadas no fogão, e pés de fruta. Tem infinitos cacarecos que servem de vasinhos para uma floresta de suculentas delicadamente arranjadas em jardinzinhos mágicos. Tem álbum de fotografias muito antigas, em preto e branco. Tem máquina de costura e o sinal definitivo de uma casa de vó: um pequeno fogão à lenha que aquece o lar no inverno, e serve para assar os pinhões quando chega a época.

Lá dentro mora uma avó que é única. Conhece segredos antigos, remédios caseiros, receitas de família. E também é inteligente, atualizada, produtiva, trabalhadora, vive na internet. Sabe fazer reiki, massagem e induzir ao relaxamento crianças (e adultos) que não conseguem dormir. Encontra soluções criativas, inventa moda, não tem medo de se arriscar, diz o que pensa, pratica o que fala e vive fazendo o bem.

Que alegria saber que nosso amorzinho terá essa vovó tão especial, que até hoje cuida de mim e em breve terá em seu currículo, além da qualificação de melhor mãe do mundo, a de melhor avó.

Quando o amor maior do mundo vive dentro de você

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Sempre gostei de me expressar através da escrita. Quando criança, a vontade era tão grande que não esperei a professora começar a me alfabetizar. Aprendi os sons das letras perguntando à minha mãe, e comecei a uni-las para formar palavras.

Por toda a vida imaginei que, quando engravidasse, escreveria sobre todas as minhas sensações. Faria um diário, talvez um livro. Tenho em casa, guardadas numa velha caixa, cartas escritas para mim por minha mãe, antes do meu nascimento. Ela me chamava de filhote, porque não sabia se eu era um menino ou uma menina. Naquela época, não era possível saber com antecedência. Eu imaginava que, quando chegasse a minha vez, escreveria muitas cartas ao meu bebê.

Minha vez chegou. Meu marido e eu decidimos juntos que era o momento de acolhermos uma nova vida no seio da família. Uns três meses depois dessa decisão, pedi ao meu médico para fazer um exame para saber se eu estava ovulando, pois meu ciclo menstrual era bem irregular e era difícil calcular meu período fértil. No dia do exame, 21 de agosto (o 12º daquele ciclo), a médica avisou: “você vai ovular em cerca de 12 horas!”. No mesmo exame, ela constatou que eu tinha um pólipo no útero. Na consulta seguinte com meu GO (ginecologista e obstetra), ele não me animou muito. Disse que a chance de engravidar diminuía bastante com o pólipo (que dificulta a fixação do óvulo fecundado no útero) e que, se minha menstruação viesse, eu devia já marcar a cirurgia para removê-lo.

O Dr. Alvaro disse, ainda, para eu esperar até o dia 14 ou 15 de setembro para fazer o teste de gravidez e ter um resultado certeiro. Mas no dia 9, antes mesmo da data em que supostamente minha menstruação viria, eu estava me sentindo diferente. Não sei explicar quando me perguntam “diferente como?”. Só diferente. Fiz o exame de urina logo que acordei, e duas linhas rosa fizeram o mundo parar por um instante. Não contei para o marido, decidi antes confirmar no exame de sangue, feito no mesmo dia, às 18h30. O rapaz na recepção disse que o resultado sairia em 24 horas. A não ser que ele fizesse o pedido com urgência. Eu queria com urgência? A voz do rapaz era de excitação, ele parecia querer que o resultado saísse depressa quase tanto quanto eu. Pedi com urgência.

Naquela noite, marido e eu vimos um filme (não lembro qual). Ele não notou, mas de vez em quando eu clicava para atualizar a página do laboratório. O filme terminou, marido foi mexer numa planilha, estava calculando mais ou menos quanto dinheiro precisamos guardar para irmos para a Alemanha, onde ele sonha fazer um mestrado. Já passava das 23h e eu imaginei que ninguém mais estaria no Frischmann Aisengart colocando resultados de exames no site àquela hora. Mas alguém estava. O resultado do Beta Quantitativo foi 3472 mUI/mL. Parecia coisa pra caramba, mas não dizia nada além disso no papel, não havia valores de referência. Fui buscar na internet. Existem várias tabelas que adotam parâmetros diferentes, mas em regra a partir de 50 mUI/ml considera-se positivo. Eu estava, portanto, bem mais que ligeiramente grávida.

Marido voltou à sala com o computador na mão, havia atualizado a planilha. Não consegui nem registrar o valor que ele havia recém calculado. Apenas disse a ele: “tenho uma nova informação essencial que você precisa incluir na sua planilha e nos nossos planos. O resultado desse exame aqui”. Levou uns segundos para ele entender e me perguntar: “VOCÊ ESTÁ GRÁVIDA?”. Celebramos num abraço, ele sentou ao meu lado e, com os olhos perdidos em algum ponto da parede, disse, provavelmente para si mesmo: “eu vou ser pai”.

Imagine, portanto, o quão planejado foi esse bebê. Sei até o dia da concepção: 21 ou no máximo 22 de agosto. Em 9 de setembro confirmei sua existência, ainda microscópica, dentro do meu ventre. Na primeira ecografia, parecia mais um camarãozinho, mas chorei ao ouvir o som de seus batimentos cardíacos acelerados. Aquele som tornou real algo que, até então, parecia somente um desejo muito grande.

Decidimos guardar a notícia pelo primeiro trimestre. E mesmo depois disso, fomos contando para as pessoas mais especiais conforme as encontrávamos pessoalmente. Estranhamente, eu não sentia muita vontade de falar – ou mesmo escrever – a respeito. Os sentimentos eram absolutamente intensos e inéditos, mas eu não sabia como (ou talvez não quisesse) expressá-los.

A cada dia surgem sensações diferentes. Muitas delas têm nome, como as dores de cabeça e cólicas dos primeiros dias, os enjoos e a falta de apetite que me fizeram emagrecer mais de 4 quilogramas nos primeiros meses, irritação nos olhos, pressão baixa, sono, muito sono, mais sono, cansaço. Depois que os enjoos passaram, muito apetite, que me fez recuperar os 4 quilogramas e engordar quase outros 5 em pouco mais de 2 meses. A memória cada dia menos confiável. Se não estiver marcado na agenda do celular, com alarme programado, é fácil esquecer qualquer compromisso. Mais que isso: às vezes estou falando e não consigo me lembrar de alguma palavra simples. Outro dia, não conseguia lembrar o nome de Roma. É um tanto humilhante ter que buscar no Google “capital da Itália” ou “quem tem boca vai aonde mesmo?”.

A sede aumentou, mas não tanto quanto a vontade de fazer xixi. Parece que cada litro de água ingerida se transforma em dois de urina. A fome aumentou também, mas o estômago só encolhe, esmagadinho pelo útero crescente. A barriga parece que surgiu de um dia para o outro. E dobrou de tamanho em uma semana. As costas doem cada vez mais, e vai ficando mais difícil encontrar uma posição confortável para dormir. A visão piorou – o astigmatismo passou de 0,5 para 1 grau, e surgiu 0,25 de miopia, que nunca tive antes. Tudo efeito dos hormônios. Também são eles que deixam os tendões e ligamentos mais frouxos, o que, somado ao aumento de peso e ao deslocamento do meu centro de gravidade, diminuiu o arco na sola do meu pé, deixando-o mais chato e, com isso, um tiquinho mais comprido. Muitas mulheres precisam trocar todos os sapatos durante a gravidez e, em alguns casos, a mudança é permanente! Ninguém me avisou disso antes.

Por outro lado, a simbiose entre mim e o pequeno ser que se forma aqui dentro está entre as mais surpreendentes façanhas da natureza. Segundo um estudo de bioquímica publicado pela Universidade de Navarra, desde as primeiras semanas de gestação se estabelece uma comunicação molecular entre mãe e bebê. Por meio desse diálogo silencioso, o embrião desativa as células maternas de defesa que deveriam rejeitá-lo como um organismo estranho. Metade dele veio do pai e é, portanto, distinta do corpo materno, mas não é reconhecida como um perigo.

Células da mãe passam para o bebê pelo cordão umbilical, mas também células do sangue do feto e da placenta, que são pluripotenciais, passam para a circulação materna. Possuem grande capacidade de autorrenovação e colaboram com as células mãe adultas na função regenerativa do corpo da mulher, que as conserva por toda a vida. Ou seja, engravidar rejuvenesce. Isso se chama microquimerismo. Engravidar também reduz o estresse: aumenta a produção de oxitocina (neurotransmissor relacionado à confiança, conhecido como “hormônio do amor”) e reduz a de cortisol.

Notícias tristes me fazem chorar. Notícias felizes também. Algumas músicas ganharam um sentido totalmente novo. De vez em quando estou distraída fazendo alguma coisa, e percebo que estou levando chutes e/ou cutucões há algum tempo. Basta eu notar, que o movimento cessa. É como se o bebê só quisesse me lembrar que está ali. E como se adivinhasse meu sorriso diante da lembrança. Outras vezes, repouso minha mão quentinha sobre o ventre, e a movimentação se intensifica. Mas é quase sempre só para mim. É difícil conseguir mostrar para alguém ou filmar, acho que tenho um bebezinho tímido.

Alguns alimentos que eu adorava agora me causam quase repugnância. O vício em café se transformou em aversão. Outras coisas que eu não comia agora me dão água na boca só de imaginar.

Várias outras sensações não têm nome. Talvez por isso eu tenha ficado quietinha por tanto tempo. Via amigas anunciando a gravidez logo nos primeiros dias, compartilhando imagens do primeiro ultrassom, mas eu guardava a minha alegria como um segredo só nosso, de nós três. Vi uma palestra sobre puerpério, da psicoterapeuta perinatal e materna Flavia Penido, e em um momento ela falava da fusão entre mãe e bebê. Essa fusão, que também é um dos temas do livro “A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra”, da psicóloga Laura Gutman, acontece nos níveis emocional, físico, psíquico, espiritual. Na palestra, Flavia explicou que, assim como o bebê não sabe explicar o que está sentindo, graças a essa fusão, muitas vezes também faltam palavras à mãe. Agora tudo faz sentido.

Têm surgido ainda novas oportunidades de me apaixonar pelo meu marido. Acontece toda vez que o vejo emocionado, pensando comigo no nosso bebê. Quando percebo o amor imenso que ele já nutre por essa pessoinha. Quando ele cuida de mim, antecipa minhas necessidades e me dá todo o apoio de que preciso. Simplesmente tenho a certeza de que não poderia haver no mundo um pai mais incrível do que ele será, e isso me enche de tranquilidade e confiança. Decidimos juntos que somente no momento do parto saberemos se é uma menina ou um menino, porque para nós isso não faz mesmo diferença. O que a natureza nos confiar será digno de todo amor e cuidado. E se quiser vai andar de skate, patins, bicicleta, jogar futebol, fazer judô e balé, correr na rua, rabiscar paredes, brincar de astronauta, casinha e pirata. Não vamos impor limites à sua imaginação e criatividade, como ilimitado também é o nosso amor.

Hoje finalmente decidi escrever algo sobre esse processo, e as palavras vieram assim, um pouco desordenadas, e talvez não façam tanto sentido para o leitor. Mas sei que meu pacotinho entende tudo isso, num nível molecular e também além da matéria. Todo o meu sentir se registra nas suas pequenas células. Quando ela ou ele nascer, eu direi todos os dias que a/o amo, mas por enquanto já está dito. Entre nós, enquanto somos duas vidas em um só ser, tudo está compreendido. 

Bom dia!

Outro dia, minha professora de Yoga falava sobre mantras: mesmo que não saibamos o que querem dizer as palavras em sânscrito, entoá-las gera efeitos positivos. Quando conhecemos e refletimos sobre o significado, porém, os resultados são muito mais intensos.

Hoje, caminhando para o escritório como faço todas as manhãs, ocorreu-me que é assim também com outras coisas que dizemos por hábito, como um gesto mecânico ao qual não damos atenção. Como a expressão “bom dia”. Apenas dizê-la já tem seu efeito sobre quem diz e sobre quem ouve. É sinal, no mínimo, de cortesia. Mas é possível fazer mais que apenas pronunciar as palavras. Pensando nisso, ao me dirigir a cada uma das pessoas que costumo cumprimentar no meu caminho, experimentei empregar significado à saudação.

Começando pelo porteiro do meu prédio, passando pelo gari, até chegar à secretária do escritório, eles talvez não tenham notado diferença, mas eu não apenas lhes disse “bom dia”. Desejei de verdade que fosse bom para eles – para nós – o dia que começava. Já ao taxista que me lança olhares lascivos, o “bom dia” teve significado diferente. Desacompanhado de sorriso e pronunciado em tom seco e repreensivo, esse serviu para dizer: não me olhe como se eu fosse coisa, pois sou gente. Ele notou a diferença e respondeu baixinho, acabrunhado, quiçá arrependido.

Palavra é manifestação verbal de um pensamento. Quanta coisa cabe dentro de um “bom dia”!

Bebês estão sendo arrancados de suas mães em BH. Você sabia?

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Às vésperas do dia das mães, eu gostaria de falar apenas de notícias felizes relacionadas a essas mulheres tão essenciais em nossas vidas. Mas a verdade é que estou pensando em mães que estão sofrendo uma injustiça muito grande, que tem me deixado de cabelo em pé. E que até hoje não recebeu quase nenhuma atenção da mídia. Tenho acompanhado tudo especialmente pelo blog Dadadá, no portal Vila Mamífera. Houve também um debate num jornal de Belo Horizonte, no qual foi publicado o texto de Marcos Flávio Lucas Padula, Juiz de direito da Vara Cível da Infância e da Juventude de Belo Horizonte, o de Gabriella Sallit, advogada, ativista da ONG Parto do Princípio e autora do blog Dadadá.

Trata-se de uma recomendação das promotoras de Justiça da Infância e da Juventude Matilde Fazendeiro Patente e Maria de Lurdes Rodrigues Santa Gema, do Ministério Público, para que bebês de mulheres que supostamente usam drogas, álcool ou que não fizeram pré-natal sejam sumariamente retirados de suas mães e levados para abrigos ou adoção. Sem direito a defesa, sem provas, sem tratamento ou tentativa de reabilitação, sem processo judicial.

Com base nessa recomendação, várias mães já perderam seus filhos. Evidentemente, como ressalta Gabriella Sallit, a medida só tem sido tomada em hospitais públicos, até hoje nenhum bebê foi retirado de sua mãe numa maternidade particular – imagino que não existam usuárias de álcool e drogas nas classes média e alta, né? Até dezembro de 2014, mais de 170 bebês haviam sido “roubados” de suas mães biológicas ainda na maternidade, antes que as mulheres tivessem a chance de segurá-los ou amamentá-los uma única vez.

No artigo publicado no jornal O Tempo, Gabriela ainda cita que “o abrigamento compulsório de bebês, além de absolutamente ilegal e arbitrário, tem consequências funestas: as usuárias estão abandonando os tratamentos e deixando de procurar os serviços de saúde para pré-natal e parto, com o compreensível medo de perder seus filhos”.

Hoje a Gabi publicou um texto contando que um dos bebês retirados da família morreu no abrigo, sufocado no próprio vômito. “Este bebê nasceu em outubro de 2014 e foi tirado da mãe ainda na maternidade. De fato, ela não tinha como cuidar dele. A avó materna estava visitando-o, até que foi proibida pelo abrigo de continuar a ter contato com o pequeno. Ela queria sua guarda. Ele não precisava ter morrido. Não precisava ter uma vida tão horrível nos seis meses que passou na Terra. Faz uns dias que não durmo, com este caso martelando a minha cabeça. Ontem tive uma reunião no Ministério Público, com a presença dos deputados João Leite, Ione Pinheiro e Celise Laviola. Os promotores que elaboraram as Recomendações estavam lá. Absolutamente surdos. Completamente ignorantes do mal que estão fazendo a estes bebês, a estas mulheres, a estas famílias.”

Não discordo que existem dependentes químicos sem condições de cuidar de si próprios, quanto mais de uma criança. Mas para essas pessoas, a tutela do Estado deveria assegurar ao menos a possibilidade de tratamento e reabilitação. Se mesmo assim se concluir que a mulher não tem condições de ficar com o bebê, deve-se verificar se algum familiar pode assumir a guarda temporária ou definitiva. E, independentemente de qualquer coisa, o respeito do devido processo legal é imprescindível. É a única garantia que todos nós temos contra o abuso de poder. Fica muito fácil, sob a premissa de cumprir cegamente essa recomendação do MP, retirar bebês recém-nascidos de mulheres que não tiveram sequer a chance de provar se têm ou não condições de criar seus filhos!

Se alguém achar que estou imaginando coisas, que leia essa notícia sobre casos de adoção irregulares no interior de Minas Gerais, onde um juiz está sendo acusado de retirar bebês das mães biológicas (apenas adivinhe se são pobres), algumas dentro da maternidade, e entregar a famílias adotivas. Uma testemunha que fez acusações contra o juiz foi presa um dia depois da veiculação da matéria pela TV local, sob acusação de receptação de produto furtado.

Estou arrasada e com o coração partido, como a Gabi. Assim como ela, eu também não sei mais o que pode ser feito. Enquanto não encontramos uma solução, peço a todos que se sensibilizarem com essa situação que divulguem, compartilhem, denunciem, assinem essa petição elaborada pela Gabi, contem para os amigos. Façamos pressão contra essa injustiça! Como disse uma amiga, “tirar o filho de alguém que já não tem nada na vida é maldade demais”.

Saiba mais:

http://vilamamifera.com/dadada/sequestro-de-bebes-em-maternidades-de-bh-e-o-estado-de-excecao/

http://vilamamifera.com/dadada/eu-poderia-estar-brincando-com-meus-filhos-mas-estou-pensando-nas-maes-que-perderam-os-seus/

http://vilamamifera.com/dadada/bebes-sequestrados-em-bh-debate-no-jornal-o-tempo/

http://vilamamifera.com/dadada/wp-content/uploads/sites/30/2015/03/Debate-O-Tempo.pdf

http://vilamamifera.com/dadada/morre-um-bebe-sequestrado-e-ninguem-nem-fica-sabendo/

Trinta e três 

466846154Trinta e três anos. Que idade é essa? Será mística, crística ou crítica? É tempo de morrer o velho eu e deixar nascer algo novo.

Não há de ser ainda metade da minha existência – talvez um terço, talvez até menos, confiante que sou nessa longuíssima linha da vida que atravessa minha mão. De qualquer forma, já não sinto, como outrora, que tenho todo o tempo do mundo pela frente. Apesar de minha crença na imortalidade do espírito, discretos sinais no espelho insistem em me fazer lembrar que o tempo está passando. Inexorável e fora do meu controle.

O mundo me cobra maturidade e o exercício pleno de minhas capacidades. Que eu saiba administrar minha vida, que eu produza, que seja útil. Não são raros os dias em que sinto que deixo a desejar nesse aspecto. Qual é minha função? Qual será minha missão? Acreditar que existe um propósito para minha existência será mera pretensão?

Parece que, aqui, nesse ponto da vida, eu já deveria ter algumas respostas. E não é que eu não tenha. Mas surgiram tantas outras perguntas.

Colho hoje os resultados de muitas escolhas. Alguns são tão felizes que, se tivesse a oportunidade de voltar no tempo, faria exatamente do mesmo jeito. Outros já não me agradam e me pergunto constantemente: por que é que me obrigo a continuar convivendo com coisas que não me trazem felicidade? Que estranho apego é esse a situações indesejadas? Essa está na lista das coisas que não entendo ainda.

Sinto hoje, mais do que nunca, a importância das conexões humanas. Urge em meu peito uma vontade sincera de unir pessoas. E é aí que, de vez em quando, sem estar procurando, por ventura me encontro. Descubro que, mesmo sem querer, minhas palavras e atitudes têm o poder de agregar. Que minha influência é positiva, que inspiro coisas boas.

Todo mundo tem seu próprio critério medidor de sucesso. Para algumas pessoas é o destaque no meio acadêmico. Para outras, são bens materiais. Para outras, a quantidade de carimbos no passaporte. Há quem meça pelo prestígio profissional. O meu critério são as pessoas na minha vida. Olho para os amigos que tenho, para o meu companheiro, melhor amigo e marido, para os familiares que são amigos e penso: que sucesso! Não pela quantidade, claro, mas pela qualidade. Quanta gente incrível faz parte da minha história!

Ao contrário de carros na garagem, que a cada ano são superados por modelos mais modernos, as pessoas evoluem. Ficam cada vez melhores. E pessoa nenhuma me pertence, como eu não pertenço a ninguém, então o fato de continuarem na minha vida é um forte indício de que eu estou evoluindo também. Caminhemos juntos! Preciso de toda essa gente boa comigo para colocar em prática a modesta ambição de mudar o mundo.

A união é o que mais me entusiasma. Estamos condicionados a ver o que é mau, porque tragédias vendem jornais. Mas quando entramos em comunhão com o universo, quando ousamos nos aproximar do humano, somos capazes de enxergar o bem. E descobrimos, com estranheza, que ele ainda prepondera.

Trinta e três anos. Já aprendi algumas coisas. Especialmente, que só o infinito será suficiente para tudo que ainda falta aprender. Sei respeitar minha natureza e sei quando devo desafiar meus limites. Confio em mim mesma e amo esse jeito que é só meu. Minha maior especialidade é ser eu mesma, mas não sei ser sempre a mesma. A cada dia me reinvento. A mudança não me assusta, nem tampouco a permanência. Sou feita de coragem, de amor e de esperança.

Que venha a nova idade. A vida me tem sido uma grande amiga, e espero poder retribuir. Metade do meu coração é gratidão pelo que vivi, e a outra metade é expectativa pelo que virá. Que o Sol seja bem-vindo ao início de um novo  e próspero ciclo.

Porque eu preciso do feminismo

Quando eu tinha oito anos de idade, minha mãe me mudou de escola no meio do ano. Fui recebida de braços abertos por uma professora muito querida. Somente por ela. Meus colegas me desprezavam e faziam questão de me lembrar o tempo todo do quanto eu não era bem-vinda. Do quanto eles preferiam que eu tivesse continuado na minha escola antiga. E do quão feia eles me achavam. Eu nem era feia assim, mas eles insistiram tanto nisso que acabaram me convencendo.

Eu era uma das alunas mais inteligentes da turma. Minhas notas eram as mais altas, e eu nem precisava me esforçar para tanto. Isso fazia meus colegas me odiarem ainda mais. O meu primeiro dia de aula naquela escola foi também o primeiro de outra menina. Linda, loira, de olhos azuis. Ela foi bem recebida por todos os colegas, meninos e meninas. Aos oitos anos de idade aprendi que, se você é uma menina, ser bonita é essencial, e ser inteligente não ajuda em nada.

Ainda naquele ano, a professora organizou um concurso de verbos. Ao final de uma semana conjugando verbos diversos em vários tempos diferentes, eu não somente venci, mas fui a única da sala que não errou nenhum verbo, em nenhuma pessoa, em nenhum tempo. O prêmio era passar um final-de-semana com a professora, que era nossa heroína naquela idade. Em segundo lugar, ficou um menino e, em terceiro, uma menina, que não era minha amiga e nem mesmo me tratava bem naquela época. Como eu havia sido a campeã, a professora me deu o direito de escolher se eu queria ou não que a menina que ficou em terceiro lugar recebesse o prêmio também, ou seja, se eu aceitava que ela fosse junto comigo passar o final-de-semana na casa da professora.

Eu pensei bastante a respeito e concluí que não era justo, mas tive medo de dizer isso e alguém achar que eu gostava do menino – mais do que como colega. Na dúvida sobre como me expressar sem me comprometer, disse apenas que preferia não levar a menina. Aos oito anos de idade, eu aprendi que um menino e uma menina podiam até ser colegas, mas a amizade entre eles não era muito incentivada. Não era “certo” que o menino fosse junto comigo desfrutar do meu almejado prêmio. E, ante minha recusa em levar a menina que nem gostava de mim, a professora chamou minha mãe para conversar sobre o meu comportamento. Aprendi que, como menina, era minha obrigação ser gentil e cordial até com quem não gostasse de mim (embora minha mãe não tenha concordado que havia algum problema no meu comportamento e achasse que, uma vez que me foi dada a oportunidade de escolha, essa escolha devia ser respeitada). Aprendi também que um menino, mesmo tendo ficado em segundo lugar, sairia prejudicado porque a interação entre meninos e meninas tinha seus limites.

Levei anos conquistando amizades naquela escola. Na sétima série do antigo primeiro grau (não me perguntem a que fase do ensino fundamental isso corresponde hoje), minha mãe decidiu me mudar de colégio, depois de eu ter levado duas suspensões por mau comportamento – em situações que, se eu fosse um menino, teriam sido consideradas normais. Na nova escola, conheci o meu pior algoz. Um menino da turma me humilhava por eu ser feia, mas também – e especialmente – por ser menina. Fazia piadas cruéis em relação a minha aparência, meu corpo, meu rosto, meu nariz. Fazia piadas grotescas com conotação sexual, algo que jamais agrediria um menino, mas era extremamente degradante para uma menina. Aos 13 anos, eu já sabia que tudo que se referia ao sexo (que eu ainda levaria anos para praticar) era muito feio para uma menina. E já estava cansada de saber que, se eu era alvo de agressões, a culpa era minha, por ser feia. Se eu fosse bonita, estaria livre.

Algumas vezes, professores presenciaram as agressões que eu sofria. Eles riram e seguiram com as aulas, como se ignorar fizesse aquilo desaparecer. Eu cheguei a ouvir de alguém que, se eu demonstrasse que estava ofendida, seria pior. Eu já nem sabia como reagir – o nível da agressão era tão baixo, que eu não tinha como responder. E ainda me diziam que a melhor resposta era o silêncio. Aos 13 anos, aprendi que precisava engolir o choro, suportar sozinha e fingir que não me incomodava. Minhas colegas meninas riam, mesmo sem achar graça. Aprendi que é mais fácil se solidarizar com o agressor do que com a vítima, pois isso diminui as chances de se tornar o alvo das próximas agressões.

Um dia, no grupo escoteiro do qual eu fazia parte, fiquei com um menino, dois anos mais velho que eu. Não havia uma regra explícita dizendo que era proibido “ficar”. Mas, logo que a chefe da tropa soube do ocorrido, ela nos chamou para uma conversa séria. Deu-nos uma leve bronca e, em seguida, disse ao menino que ele estava dispensado. Eu não. Seguiram-se mais uns 20 minutos de sermão muito mais intenso, direcionado exclusivamente a mim. Porque eu precisava me valorizar. Porque eu tinha que me dar o respeito. Porque a mulher tem o poder de dizer não. Aos 14 anos, aprendi que era minha obrigação impor limites aos homens, que, por sua vez, não têm poder de escolha, movidos pelo imperativo da natureza que os leva a tirar proveito de qualquer fêmea que assim permita. Aprendi que, enquanto me beijar era algo natural para o menino, o comportamento de aceitar que ele me beijasse denotava minha falta de caráter. Eu não havia me valorizado, portanto ele não precisava me valorizar também. O menino aprendeu que a bronca dele era mais curta, assim como sua responsabilidade.

Durante os anos que se seguiram, em cada atividade do grupo, eu não podia sair das vistas daquela chefe escoteira, sempre extremamente preocupada com a possibilidade de eu “não me dar o respeito” novamente. Do jeito que eu era – fácil, sem valor? – eu era bem capaz de engravidar. Eu ainda era virgem. Tentei me convencer de que ela só estava tentando me proteger, pois queria o melhor para mim. Mas nunca a vi dizer a um dos meninos, que também estavam sob sua responsabilidade naquelas atividades do grupo escoteiro, que eles deveriam ser mais recatados. Nem jamais ela ou outro chefe escoteiro orientaram a qualquer um de nós – meninas e meninos – a nos relacionarmos com responsabilidade, não somente no que se refere ao uso de preservativos e contraceptivos, mas em relação aos sentimentos uns dos outros.

Já na faculdade, deparei-me com o trote pelo qual passavam os meninos nos jogos jurídicos. Os novatos eram obrigados a ficar somente de cueca e passar num corredor de mulheres. Tudo parecia muito engraçado. Nenhum menino jamais ousou dizer que não queria passar por aquilo, pois evidentemente seria vítima de humilhações muito maiores do que o trote. Aos 19 anos, aprendi que, assim como a mulher perdia seu valor ao dizer “sim”, o homem era menos homem se dissesse “não”. Muitos deles saíam com as costas cheias de vergões, alguns escorrendo sangue. A ideia era que, ao voltar para casa arranhados, perdessem as namoradas. Aprendi que destruir o relacionamento alheio era motivo de risos. Alguns veteranos entravam no meio do corredor de meninas e infligiam castigos ainda mais dolorosos a alguns dos calouros. Um menino baixinho e magrinho teve a cueca arrancada da forma mais dolorosa que você pode imaginar, e saiu correndo nu, machucado, com as costas sangrando, cobrindo a genitália com as mãos, ao som de gargalhadas. Ninguém cogitaria submeter as meninas a um trote como aquele, mas os meninos deveriam levar na esportiva e guardar seu sadismo para “se vingar” de futuros calouros, perpetuando a violência. Aprendi ali que o machismo não agride somente as mulheres.

Os veteranos entoavam hinos cujas letras logo aprendemos. Um dos mais famosos falava da caloura puquiana (aluna da PUC). Com palavreado chulo, ridicularizava uma mulher por sua forma física e por seu apetite sexual. Um trecho da música falava da caloura boqueteira: explicaram que essa parte era mais recente, e foi incluída na letra em “homenagem” a uma caloura da nossa própria faculdade, que teria feito sexo oral num colega durante uma viagem de ônibus, numa das edições anteriores dos jogos. A conduta do rapaz que havia recebido o sexo oral jamais foi questionada por ninguém. Mas a moça era despudorada, desavergonhada e digna de xingamentos eternizados na canção, que continuaria a ser cantada muito tempo depois de ela se formar – se é que ela aguentou ficar na faculdade depois daquilo. Aprendi que os rapazes tentariam me convencer a fazer tudo que as personagens (reais e fictícias) daquelas músicas faziam. A fazer sexo sem pudor, de forma incansável, de todo jeito possível. E que, se eu me submetesse à vontade deles, isso faria de mim um lixo desprezível. E eu não teria ninguém para culpar além de mim mesma. A inteligência feminina, naquele meio, continuava sendo um acessório tão útil quanto havia sido para me destacar no meio social aos 8 anos de idade. Aprendi que o único patrimônio capaz de me valorizar como mulher era o pudor, o recato que faltava à caloura puquiana e à caloura boqueteira. E, claro, eu ria junto ao ouvir aquelas músicas que rebaixavam mulheres à condição de lixo – rir daquilo era um jeito de mostrar que eu não era assim. Era um jeito torto de me defender.

Notei que, na faculdade, eu já não era tão feia. Eu era atraente. Aprendi, então, que se os rapazes na balada passavam a mão em mim sem meu consentimento, se os caras com quem eu ficava tentavam forçar a barra e ir além do limite que eu estabelecia, se homens desconhecidos me diziam coisas nojentas ao passar por mim na rua, a culpa devia ser minha, por ser bonita. Por ser gostosa. Por estar de saia, ou de decote, ou de calça justa. Eu brigava, e muito – uma vez, acho que quebrei os dedos de um desconhecido que enfiou a mão embaixo da minha saia numa balada. Mesmo assim, passei a pensar várias vezes antes de escolher cada roupa, pois aprendi que era minha a responsabilidade pelos rótulos que eu recebesse das pessoas a partir do que eu vestisse. Uma amiga me explicou um dia que, aos 25 anos, eu não tinha mais idade para ser gostosa, eu precisava parecer séria para que me respeitassem. Também ouvi de muita gente que mulher não deve falar palavrão. E já teve quem me achasse menos atraente por eu ser muito engraçada e por falar o que penso.

Já no mercado de trabalho, ouvi colegas homens dizerem que gostam de conversar comigo porque eu penso como um homem, porque tenho um senso de humor masculino. Curiosamente, o senso de humor desses homens nem se compara ao meu. Não, queridinho, esse cérebro é BEM feminino, e brilhante também – lide com isso. Ouvi clientes fazerem comentários (que eles juravam que eram elogios) absolutamente constrangedores. Numa reunião de trabalho, cheguei a ouvir: “meu amor, que aliança é essa no seu dedo? Tudo bem, não tenho ciúmes, também sou casado”. Comentários que meus colegas homens JAMAIS precisaram enfrentar e acham frescura se eu disser que achei ruim.

Depois de casada, ouvi de amigas que é quase impossível o meu marido não me trair, pois todos os homens traem. Porque homens não podem dizer “não”, lembra? E, claro, as chances de ser traída são maiores se eu não tiver a disposição de satisfazê-lo sexualmente mesmo quando eu não estiver a fim, mesmo que eu não goste, mesmo que me machuque. E ouvi também que, se meu marido me trair, isso não significa que ele não me ame, que ele não seja um bom marido e que não será um bom pai para os meus filhos, porque é natural do homem trair. Ouvi, ainda, que quando a mulher trai, é diferente (pior, claro), porque a mulher não sabe separar as coisas como os homens. Não, eu não entrei numa máquina do tempo, desembarquei nos anos 50 e fiz amigas por lá. Ouvi isso em 2014, 2015, de mulheres cultas, trabalhadoras, independentes. A traição, para o homem, seria apenas um comportamento natural, contra o qual ele pouco ou nada pode fazer. Agravado, ainda, pela sempre presente culpa feminina. E a mulher, incompetente, não é sequer capaz de separar sentimento e prazer – se o fizesse, estaria eu liberada para trair também?

Os exemplos são infinitos. Não há um dia em que o machismo não me agrida de alguma maneira, ainda que eu seja uma mulher branca, heterossexual, casada, de classe média.

Desde criança eu achei que havia algo errado nessa história toda. Sempre quis viver numa sociedade em que uma menina pudesse escolher livremente suas amizades por afinidade, e não em razão do gênero. E sem ter que ouvir das tias “ah, esse é seu namoradinho?”. Não, porra. Criança não tem namoradinho.

Desde cedo, eu queria ser valorizada por minha inteligência, e não aconselhada a ser boazinha com as coleguinhas malvadas para ser aceita. Eu queria que a minha aparência física, por mais que desagradasse alguém, não fosse usada para me agredir. Gostaria que meus professores não tivessem lavado as mãos quando viram um garoto me humilhar publicamente ao longo de um ano inteiro.

Queria viver num mundo em que a voz do agressor não fosse sempre a mais alta, a que produz mais eco. Eu queria ter sido ouvida. Queria que muitas pessoas se unissem e tivessem coragem de reagir e dizer: “pare, o ridículo é você”. Queria ter sido eu a primeira a perceber e gritar para o mundo que as calouras tinham direito de gostar de sexo e que isso não fazia delas seres desprezíveis.

Eu sempre achei que beijar fosse uma coisa boa. Eu queria que, todas as vezes em que duas pessoas se beijassem de livre e espontânea vontade, isso somente agregasse valor a suas experiências, e jamais diminuísse o valor moral de uma das pessoas envolvidas. Eu gostaria que o sexo recreativo e consentido, incentivado nos homens como um comportamento natural do qual não podem escapar, não tornasse uma mulher menos digna de respeito. Queria que também para os homens o sexo fosse uma escolha, e não uma obrigação.

Eu gostaria que os homens também tivessem direito ao não. Queria que lhes fosse permitido, caso assim preferissem, recusar que pessoas estranhas lhes tocassem, sem medo de represálias ou de serem considerados homossexuais. Gostaria de viver num mundo em que ser considerado homossexual não fosse ofensa. Um mundo em que SER homossexual, inclusive, não incomodasse ninguém.

Queria que meninos não precisassem suportar dolorosos e vexatórios rituais de passagem para provar que são homens. E que meninas não tivessem que aguentar humilhações em silêncio por serem feias. Ou tolerar falta de respeito por serem bonitas.

Gostaria que meu modo de me vestir não falasse mais sobre mim do que minha inteligência, meu caráter, minha bondade, minha competência. Gostaria que as pessoas parassem de confiar na aparência como critério de seriedade, num mundo em que tanta gente de mau caráter anda sempre bem alinhada, em ternos e vestidos bem cortados. Queria que parassem de dizer que meu humor e a livre expressão da minha personalidade – incluindo os palavrões que falo – diminuem de algum modo minha feminilidade.

Gostaria de poder caminhar as quatro quadras entre meu apartamento e meu escritório sem ouvir “elogios”, gritos, buzinadas, sussurros e onomatopeias grotescas insinuando desejo sexual por mim vindo de desconhecidos. Adoraria poder usufruir livremente do meu direito constitucional de ir e vir, onde quer que seja, a qualquer horário. Meu marido sai sozinho para correr à noite e eu penso que, ainda que eu gostasse de correr, não teria coragem. Queria que não houvesse lugares e momentos em que não é conveniente uma mulher andar sozinha. Eu quero poder andar sem medo.

Gostaria que as pessoas entendessem a diferença entre um elogio sincero e o uso da palavra como arma para subjugar. Porque quando desconhecidos em geral mexem comigo na rua, eu sei que o objetivo não é me levar para jantar, não é me conhecer, não é sequer me levar para a cama. A maior parte desses caras fica totalmente sem reação se eu simplesmente olho para a cara deles, em vez de abaixar a cabeça. É evidente que o objetivo é me constranger e, ao mesmo tempo, mostrar que eles podem.

Eu queria nunca ter acreditado que eu não era digna de respeito, que eu era suja, que eu era feia. Queria ter sabido desde sempre que meu corpo é sagrado, é forte, é perfeito. Que carrego no ventre, nas veias e na alma o poder de minhas ancestrais, que tanto lutaram para que minha vida fosse hoje melhor que a delas.

Gostaria de nunca ter segurado a chave de casa entre os dedos para o caso de precisar usar alguma coisa como arma para me defender. Queria não ter visto, na adolescência, um cara se masturbar na rua olhando para mim, enquanto eu levava meu irmãozinho para a escola às 13h. Gostaria que nunca um homem adulto de bicicleta tivesse passado a mão em mim quando eu caminhava distraída para a escola, usando uniforme, às 7h da manhã. Queria que nenhum homem tivesse mostrado o pênis para mim ou para minhas amigas, que chegávamos à escola segurando o choro e nos perguntando se havíamos feito algo que desse a impressão equivocada de que estávamos a fim de ver o pau de um idoso na rua. Queria não ter sido encoxada num ônibus lotado a caminho do estágio, sofrendo um misto de vergonha e desespero para conseguir fugir da situação. Queria não ter chorado no escritório por causa disso, tendo que explicar a um colega o que tinha acontecido. Quero viver numa sociedade em que nenhum homem faça esse tipo de coisa com uma mulher ou uma menina. E gostaria muito que aqueles que já fizeram sentissem toda a vergonha que eu já senti, mesmo a vergonha não sendo minha.

Eu quero que as pessoas parem de justificar desrespeito dizendo que determinados comportamentos são “naturais”. Eu sei que, na natureza, os machos de diversas espécies não são fiéis. Mas nunca vi um cachorro convidar a família e os amigos para, diante de um padre, pastor ou juiz, jurar fidelidade a uma cadela. Entre humanos, temos a liberdade de escolha, e se firmamos compromisso, prometemos respeito e conquistamos a confiança de alguém, deveria ser natural que mantivéssemos nossa palavra. Quem quer viver poliamores, relacionamentos abertos ou o que for só precisa encontrar outras pessoas que queiram o mesmo. Não é “natural” prometer exclusividade e viver uma mentira. Não culpem a natureza pela fraqueza do caráter humano. Dissimular e enganar não é um comportamento louvável nem para homens nem para mulheres. Eu quero poder confiar – como confio – no meu marido, sem ser tachada de ingênua e burra por isso.

Um dia descobri que a palavra FEMINISMO, pela qual já nutri bastante antipatia, representa o ideal de igualdade, liberdade e respeito com o qual eu sonho. Descobri que eu era, que eu sou feminista.

E é por todas as situações descritas que eu PRECISO do feminismo. Porque sei que, se eu sofri, há mulheres e homens que sofrem MUITO MAIS. Porque o machismo não só fere, ele mata. Diariamente. E porque, mesmo almejando um mundo livre das mazelas do machismo, a força dessas estruturas cruéis de vez em quando ainda me faz perguntar: será que a culpa é/foi minha? Será que foi a minha roupa? Foi algo que eu disse? E se eu tivesse ficado em casa? E se eu não tivesse bebido? Será que eu disse “não” alto o suficiente? Por que foi que andei na rua tão desatenta? Será que eu deixei de me manifestar na hora certa? Será que meu salário seria mais alto se eu parecesse mais séria? Se eu não fizesse tanta piada?

Eu preciso do feminismo porque a culpa não é minha.

A culpa também não é da minha professora da segunda série, nem da minha chefe escoteira, nem de outras pessoas que somente reproduziram o discurso que aprenderam – como eu também já fiz e, de vez em quando, ainda faço, porque é tão difícil me libertar dessas amarras. Meus olhos se enchem de lágrimas ao pensar que ainda é cedo demais para que minha futura filha ou meu futuro filho nasça num mundo livre do machismo, da sua truculência, das suas estruturas limitadoras e cruéis. Preciso do feminismo para lutar para que esse mundo um dia seja realidade.

Vamos precisar de todo mundo. Venha você também.

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Segundo encontro do Grupo de Leitura sobre estudos e temas femininos e feministas.

Um doce

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Hoje almocei um hambúrguer veggie. O sanduíche veio com batata frita, e eu não estava com tanta fome assim. Eu ia apenas deixá-las no prato, mas pensei que podia encontrar alguém com fome e embrulhei para levar. Na hora de pagar, a mulher do caixa me disse que estavam com uma promoção: fazendo check in no Facebook, eu ganharia um brigadeiro de colher. Segundos depois, com o copinho de brigadeiro em mãos, decidi que quem ganhasse as batatas levaria também a sobremesa, porque eu não estava a fim de doce.

Mais tarde, vi um morador de rua deitado na calçada, mas, antes que eu chegasse até ele, um carrinheiro se aproximou e deu-lhe uma garrafa de cachaça, ao que ele respondeu:

– Eeeeeeeee… As coisa que eu mais gosto na vida é pinga e muié!

É. Mau momento pra eu chegar trazendo o rango. Deixa pra lá. Aí eu vi o Régis, um morador de rua que está sempre por perto do meu trabalho. Cego de um olho (consequência de uma surra), vive falando consigo mesmo, às vezes até discutindo. Nesses raros momentos, é melhor manter distância. Na maior parte do tempo, no entanto, ele é super tranquilo, fica cuidando de carros e não chega a incomodar ninguém. Apesar da aparência encardida, cansada e sofrida, dá pra ver que é do bem.

Perguntei:

– Amigo, quer uma batata frita?
– Eu aceito.
– Beleza. E aqui tem um docinho pra sobremesa também.

Ele, bem sério:

– Não, moça. Doce, não. Não gosto de doce. Mas pode deixar comigo que eu dou pra alguém. Eu não como doce nenhum, sabe? De doce já tem eu, né? 😀