Um ano

Filhote,
Então você fez um ano. Há algumas semanas eu vinha me preparando para essa data, sem saber ao certo as emoções que ela me traria. Lembrar do seu nascimento me causa um misto de sensações. Quero ser sempre honesta com você e, para isso, devo reconhecer que o dia do seu nascimento envolveu dor, sofrimento, medo. Mas foi também o dia em que recebi o maior presente da minha vida, a felicidade de ser sua mãe.
Decidi que faria uma festa muito linda para celebrar o seu primeiro ano, porque esses 12 meses com você foram incríveis e merecem ser comemorados. Decidi que 21/05 será sempre um dia de muita alegria na nossa família. O planejamento e a concretização da sua festa tomaram todo o tempo e a energia de que eu dispunha, e nem deu para ficar triste lembrando da parte não tão legal desse dia. Quando vi, já estava na hora de cantar parabéns pra você. 
E como valeu a pena, meu anjo! Ver você curtir a festinha que preparei com todo amor, cercado de pessoas que o amam. A lição que você me ensina a cada dia é que o tempo passa muito rápido, e por isso eu preciso dar sempre mais atenção às coisas boas e aos momentos felizes.
Agora você entrou numa nova fase, e eu continuo amando acompanhar cada passo do seu desenvolvimento. Já sabe andar, bater palminhas, dar tchau, dançar, fazer não com a cabeça, tomar água com canudinho, fazer high five, cantar no ritmo da música. 
Continua amando esmagar a Samantha, mamar (que grande vitória chegarmos a um ano de amamentação depois de todas as dificuldades que tivemos), dormir no sling, tomar banho de chuveiro no colinho, Palavra Cantada, nadar na piscina, aula de música, instrumentos musicais, cozinhar um papá imaginário nas suas panelinhas, encaixar peças nos brinquedos de montar, brincar de esconder.
Sabe falar mamãe, mamá, gata, dadá, papá, ábua, banana, batata, au-au, vovó, nossa, opa e repete outras coisas que mamãe diz. Tem 8 dentinhos e um nascendo. Tem dias em que come pouco, e outros em que não sei pra onde vai tanta comida. Dorme ainda com a mamãe e o papai, e nós três amamos isso.
Parabéns pelo seu primeiro aninho, meu amor. Grata por fazer a minha vida tão feliz.
Amo você! 
Mamãe

9 meses

Filho,
Você foi concebido no dia 21/08/2015. Exatamente 9 meses depois, você veio ao mundo, em 21/05/2016. E hoje faz 9 meses que eu amo você do lado de fora do meu ventre. 
Esse mês foi especial. Entre outras coisas, você conheceu (e adorou) o mar! Passamos férias deliciosas com seu pai e sua vovó Maria. Você descobriu a textura (e o sabor) da areia. Brincou na piscina, aprendeu a subir escada, comeu mais do que nunca e se divertiu muito! 
Também começou a natação. A primeira aulinha foi meio tensa, você não curtiu o mergulho. Mas na segunda já se soltou e se divertiu muito, mesmo mergulhando! O coração da mamãe ficou mais tranquilo! Começou ainda a aulinha de musicalização para bebês, que é pura alegria. Ao chegar em casa depois da primeira aula, deslanchou a tocar seu pianinho como nunca antes. O papai já achou que compensou o investimento, hahaha!
Agora está bem mais fácil nos comunicarmos, meu amor! Você já sabe expressar com gestos e sons quando quer algo, e também quando não quer. Para o que está fazendo quando escuta a palavra “não”. Guarda objetos dentro de recipientes (adora caixas), abre e fecha as portas e gavetas, tira as coisas de dentro dos armários. Transforma várias coisas em instrumentos de percussão (o baldinho virado, caixas, prateleiras), batendo com as mãos ou com baquetas improvisadas. 
Desce do sofá bonitinho, sem ser de cabeça. Anda pela casa se apoiando nos móveis, dá tchau, bate palmas, manda beijos. Combina sílabas em sons que parecem palavras. Fica em pé sem apoio por alguns segundos e se agacha em seguida. Finge que vai mamar e aí faz “prrrr” assoprando o meu peito. 
Aprendeu a miar imitando a Samantha. Faz carinho na mamãe, no papai, na Sam, na vovó e em amiguinhos mais novos. E quando faz carinho, afina a sua voz dizendo “hmmm” como a gente faz com você. Lança olhares cheios de doçura. Encontra posições para dormir totalmente espalhado em cima de mim, para tentar evitar que eu saia da cama após você adormecer. 
São várias descobertas diárias e eu não consigo listar todas, mas gosto de escrever aquelas de que me lembro, para você ler um dia. E para eu ler nos próximos anos, quando já não recordar desses detalhes tão gostosos do seu desenvolvimento. 
Ah! Hoje pela primeira vez você comeu com a gente o bolo do seu mesversário, feito por mim com muito amor, com farinha de trigo integral, sem açúcar e sem leite. Você adorou!
Amo ser sua mãe, amo crescer com você. Amo ver o mundo pelos seus olhinhos. Amo você mais do que tudo! ❤
Feliz mesversário, meu amor!
Mamain

Oito meses

Filhote, parabéns por mais um mês de vida. Hoje faz oito meses que você está aqui, nos fazendo mais felizes a cada dia.

Agora você já bate palmas, dá tchau e piscadinhas sedutoras. Explora todos os cantinhos da casa, abre portas, gavetas, travas. Sobe na cama, escala nos móveis, anda sozinho se apoiando neles. Os tombos ainda são frequentes, mas cada vez você aprende melhor o jeito de cair sem se machucar. Experimenta soltar as mãozinhas e fica alguns segundos em pé. Fica de joelhos e de cócoras. É também um bebê dançarino. Ah, e canta muito.

Dá abraço, beija e faz carinho. Mas também dá tapas e mordidas. Já tem 6 dentes, e eles já fizeram mamãe chorar de dor algumas vezes.

É uma delícia ver você brincar com a Samantha, jogando um brinquedo para ela e gargalhando com as reações da gata. Adora jogar bola e engatinhar atrás dela pela casa toda. A máquina de escrever da mamãe é outro brinquedo que faz muito sucesso. Termina o dia com as perninhas e pés encardidos, e faz bastante bagunça na banheira.

Continua aceitando bem novos alimentos, anda tentando usar a colher sozinho para pegar comida e levar à boca, e oferece o que estiver comendo para quem está perto. A primeira vez que fez isso foi no mês passado, quando colocou um brócolis na cara do chefe do papai na festa de fim de ano da empresa. De lá para cá esse altruísmo se intensificou: até os brinquedos babados você quer que a gente também experimente, tira da sua boca e coloca na nossa. Sabe expressar perfeitamente quando quer mais comida (faz um “hummm” nervoso e característico enquanto bate com as mãozinhas na bandeja).

Já faz tempo que balbucia, mas hoje num momento em que me afastei você veio engatinhando atrás de mim e eu e seu papai ouvimos você dizer certinho “mamain”!

Filho, já nem sei mais enumerar suas habilidades. São várias novas toda semana, conquistadas em saltos de desenvolvimento que nos proporcionam noites agitadas e dias cheios de emoção.

Você é um menino lindo, inteligente e muito carinhoso! Seu jeito doce nos faz transbordar de amor. Não há nada mais emocionante que o seu rostinho se iluminando ao me ver! Sua alegria ao ver o papai chegar! Agradeço todos os dias à natureza por ter me abençoado com a graça de ser sua mãe!

Amo você!
Mamain

Texto de autoria de Oksana Guerra, originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook em 21/01/2017. 

Sete meses

Filho amado, hoje faz sete meses que você chegou. Mais um mês que vivemos na sua companhia, aprendendo a cada dia com você.

Você já sabe se sentar sozinho quando deixo você deitado. Levantar e ficar em pé com apoio, segurar seu copinho para tomar água e, com um pouco de ajuda, levar a colher com comida à boca. Experimentou muitas frutas, vegetais e ovo.

Faz bagunça na banheira. Já engatinha do seu jeito e quando cansa se arrasta pra onde quer ir. Faz posições dignas de um mestre yogi. Já tem dois dentinhos, o terceiro está nascendo e o quarto já se nota a caminho. Fica o tempo todo com a linguinha sentindo os dentes na gengiva, o que rende carinhas muito engraçadas nas fotos.

Canta para dormir, também tenta cantar junto comigo sua música preferida (continua sendo “O Pato”, de MPB4), brinca com a nossa gatinha, Samantha. Durante o dia, se eu pergunto “cadê o papai?”, você olha para a porta para ver se ele está chegando.

Adora grama e terra. Não dá bola para vídeos por mais de 30 segundos. Está aprendendo a descer da cama sozinho (sem ser de cabeça). Fez sua primeira viagenzinha de carro, conheceu o Papai Noel, viu espetáculo de Natal, foi ao cinema, subiu ao topo de um moinho, foi a vários parques, fez passeios, visitou pessoas e recebeu visitas, teve encontros com amiguinhos, foi a festas, museus.

Filhote, você nos encanta todos os dias com seu jeito carinhoso, seu chamego, seu bom humor. Seu pai e eu continuamos adorando seu bafinho de leite, seu cheirinho de anis estrelado depois da massagem do papai, suas tentativas de beijos que nos cobrem de baba.

Sou grata por mais esse mês de alegria, amor e aprendizado com você, meu anjo.

Amo você mais do que tudo!

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra e foi publicado originalmente em seu perfil pessoal no Facebook em 21/12/2016, às 21h59, enquanto o bebê dormia. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora.]

Cinco meses

Filho, faz cinco meses que você chegou para mudar as nossas vidas de uma forma que nem poderíamos imaginar. Mais um mês que passamos conhecendo você e nos encantando com o seu jeitinho. Você é uma criaturinha linda e abençoada! Sinto-me a pessoa mais sortuda do mundo por ter sido escolhida para ser sua mãe!

Tudo mudou para nós: a rotina, a hora de dormir, as opções de lazer, a alimentação, os planos, a disposição dos móveis e até algumas amizades. E nunca fomos tão felizes!

Amo ver você crescer a cada dia, inventar novas palavrinhas no seu idioma “bebeiês”, se movimentar, rolar, brincar com o pezinho, segurar na minha mão pra ficar de pé. Adoro seu sorriso quando seu papai chega do trabalho! É lindo ver vocês brincando juntos, você se aninhando no colo dele, ele lendo historinha pra você.

Filhote, você agora tem se mostrado ansioso para fazer mais coisas e às vezes se frustra por não conseguir. Se pudesse, aposto que sairia correndo pela casa!

Também me encanta ver como você é carinhoso, adora massagem, cafuné, abraços, beijinhos. Faz carinho em mim enquanto mama. Acho que agora já consegui descobrir todos os pontos em que você sente cócegas! Adoro ouvir sua risadinha!

Fico toda apaixonada quando você acorda pela manhã e pensa que eu ainda estou dormindo (talvez porque eu finjo que estou, hahaha), e você então fica olhando para o teto, fazendo seus barulhinhos, brincando com o lençol, esperando eu acordar… E quando vê que acordei, abre o maior sorrisão!

E para derreter mais meu coração, suas coxas enfim estão gordinhas e seu cabelo cada dia forma mais cachinhos! Parece que é impossível amar mais do que amo você, meu filho, mas todo dia eu me supero e amo mais ainda.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra, e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 21/10/2016. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]

Quatro meses

Que dia feliz é o de comemorar quatro meses de você na nossa vida, meu filho! Mais um mês dos seus sorrisos, risadas, barulhinhos e descobertas!

Na primeira metade desse mês você me surpreendeu aprendendo a rolar sozinho! Descobriu também o seu pé, e levá-lo à boca passou a ser uma grande diversão. Aliás, qualquer coisa que marcar bobeira vai parar na sua boca. Começou a aproveitar mais os seus brinquedinhos, agora que consegue segurá-los bem. Aprendeu a agarrar objetos quando a gente menos espera. Dar gritinhos muito engraçados. Passou a interagir melhor com nossa gatinha Samantha (aliás, apaixonou-se por ela).

Tem observado tudo com atenção nos nossos passeios. Ah, filho, você tem aprendido tanta coisa todos os dias! Mas o que mais me impressiona é o tanto que tem me ensinado! Você me ensinou a acreditar no meu leite e a confiar mais em mim. A ouvir meu instinto. Ensinou que acordar cedo pode ser uma delícia quando o seu sorriso banguela me espera. Ensinou que há sempre um novo desafio a superar, e que minha energia sempre se renova para isso. A cada dia você me ensina que o amor tem a capacidade de aumentar infinitamente, e que a vida é muito melhor agora que você está aqui.

Grata pelas lições, meu pequeno mestre! Amo você, Ivan!

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra, e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 21/09/2016. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]

Três meses

Hoje celebramos mais um mês da sua vida, meu amor! Mais um mês repleto de desafios e de decisões difíceis. Reação a vacina por várias semanas, cólicas, dificuldade para ganhar peso. Muitos conselhos, dicas, médicos, mudança radical na dieta da mamãe.

Hoje já posso dizer que fiz e faço tudo que é possível para garantir seu bem estar, desde o mais básico até o inusitado. Apesar disso tudo, os dias tiveram sempre mais sorrisos do que lágrimas (da sua parte e da minha).

Filho, eu já o amava antes mesmo de você nascer, e, desde o primeiro instante em que o vi, soube que daria minha vida por você. Mas preciso confessar: foi nesse mês que eu me apaixonei perdidamente por você. As nuvens negras do puerpério se dissiparam, embora eu continue sensível, num misto estranho de fragilidade e força. Já consigo enxergar o horizonte, e ele é cheio de cor com você aqui comigo.

Que gostoso é ver seus olhinhos me buscarem, e seu coração se acalmar quando eles me encontram. Que delícia é dormir com você nos meus braços. Que alegria é receber seus sorrisos, suas risadinhas e curtir as nossas conversinhas! Ver você se desenvolvendo, seu pescocinho firme, sua curiosidade, suas mãozinhas cada vez mais hábeis. Você tem sido uma ótima companhia, filhote! Agradeço ao universo pela oportunidade de ser sua mãe, por você ter me escolhido, por estarmos juntos trilhando esse caminho. Parabéns pelo seu terceiro mesversário, Ivan!

Muita saúde e que Deus o abençoe, meu filho amado.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra, e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 21/08/2016. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]

Do que é feito o amor

Engana-se quem pensa que o amor é feito de palavras bonitas. O amor é feito de olhares que dispensam explicações. De compreensões. De silêncios confortáveis e gestos de carinho.

O amor não requer manifestos contundentes e declarações exuberantes. Ele é feito de delicadezas. Sorrisos ao café-da-manhã, beijos de boa-noite, um copo d’água que não precisou ser pedido. Mãos dadas no sofá, cuidados na doença, conforto na tristeza.

O amor não nasce da sedução, do deslumbramento e da fascinação. A matéria-prima do amor é a verdade.

O amor não é uma promessa. Ele é presença.

O amor é feito de noites de sábado e de domingos de sol. É feito de jantares românticos em datas despretensiosas, mas também de manhãs chuvosas de segunda-feira.

O amor não é feito de opiniões sempre idênticas. Ele é feito de respeito às diferenças. E, apesar delas, de afinidade.

O amor não é uma revelação, ele é uma construção. Não é feito por pessoas infalíveis, mas por pessoas que perdoam. O amor não é feito de dor, mas quem ama não está imune a ela.

O amor tem algo de divino. E também tem um pouco de instinto.

Amor não é feito de romance, mas eles podem andar juntos. Amor às vezes é feito de amizade. Outras vezes, contém atração. Tem amor que é feito de infinito, e recebe o nome de “materno”.

O amor não é feito de arrebatamento, e sim de brandura, calor e aconchego. De incentivo, apoio e bem-querer.  De confiança e de paz.

O amor é feito de tudo que aproxima, mas não aprisiona.

[Escrevi esse texto em 10/02/2015 e por alguma razão não o publiquei. Provavelmente estava esperando uma ideia de não veio para finalizar, mas olhando agora achei que está bom assim. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a minha prévia autorização]

O ano em que eu fiquei sarada

Filho, quero contar que, por sua causa, passei a respeitar e amar esse corpo que habito. Cultivo hoje um carinho imenso por esse organismo que, ao longo de quase 41 semanas, colheu de minhas veias o melhor de mim para forjar o seu corpinho dentro do meu ventre. Que fabricou com perfeição seus órgãos e tecidos, caprichando nos acabamentos, enquanto conduzia, pelo cordão umbilical, os nutrientes necessários à sua vida e crescimento. E serviu-lhe ainda de abrigo até que estivesse pronto para vir ao mundo e respirar.

Não satisfeito, esse mesmo corpo pariu você – não sem dificuldade, é verdade – e produz até hoje seu alimento. Também não foi sempre fácil a saga da amamentação, mas com perseverança e muita vontade (de nós dois), estabeleceu-se essa relação tão intensa entre nós. E meus seios nunca mais serão olhados por mim sem que eu sinta amor e gratidão por eles.

Minhas pernas e meus braços já estiveram em melhor forma, mas como não perdoar umas celulites aqui e uma flacidez ali? Quando esses braços são a fortaleza que o acolhe e proporciona a segurança de que você necessita? Quando essas pernas sustentam o corpo que o embala, e meus pés caminham com você para onde for? Como não respeitar minha barriga, quando a pele e os músculos dela se distenderam de modo plácido e generoso para que lá dentro você pudesse crescer, seguro e confortável?

Sabe, meu amor, eu nunca gostei muito da minha voz, e me arrepiava de horror ao ouvi-la reproduzida em algum dispositivo de áudio. Mas hoje não posso deixar de simpatizar com os tons produzidos por minhas cordas vocais, pois são eles que instantaneamente acalmam você ao me ouvir.

Considero abençoadas as mãos que o acalentam e os lábios que curam suas dores com um beijo. Os olhos que registram em minha memória os momentos mais doces, que nenhuma lente poderá captar. Os ouvidos que recebem os sons das suas risadinhas, e que também me alertam mesmo de longe quando você precisa de mim.

Nesse ano brotaram em meu rosto novas rugas e marcas de expressão. Ainda no puerpério surgiram duas pequenas linhas verticais entre minhas sobrancelhas, resultantes de um movimento dos músculos usados para chorar. Eles nunca haviam sido utilizados com tamanha frequência em tão pouco tempo. Mas surgiu também um par de marcas ao lado dos lábios, vincos causados pela repetição de sorrisos largos. Essas marcas dizem muito sobre o início da minha jornada como mãe: eu jamais havia sentido com tanta intensidade. Chorei e sorri como nunca antes.

Com o passar das semanas, esse corpo que gerou você foi ajustando a dosagem dos hormônios, e as emoções, embora continuem intensas, já não me fazem chorar tanto assim. Mas os vincos ao lado dos lábios tendem a ficar muito mais profundos, porque você me dá razões para sorrir o tempo todo.

“Sarar” significa curar, dar saúde a quem está doente. Então não tenho dúvidas: a sua chegada me deixou mais sarada do que nunca fui! Curou-me de inseguranças e de cobranças desleais, libertou-me da angústia de não me encaixar em padrões inalcançáveis. Deu-me saúde para enxergar beleza em cada traço meu. E, se faltava algo para me fazer crer que eu sou linda, as pessoas me dizem que você se parece comigo. Prova incontestável da minha beleza é ser a forma que moldou você, a criaturinha mais perfeita sobre a qual meus olhos já repousaram.
Gratidão, filho.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra e foi publicado originalmente em seu perfil pessoal do Facebook em 26/12/2016 à 0h37, enquanto o bebê dormia. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]

Amar dói?

love can hurt

 

(Atenção: o vídeo contém imagens não recomendadas para crianças. E é melhor não ver no seu trabalho)


 

Gosto de uma música chamada “Only love can hurt like this” (Só o amor pode machucar assim). Gosto da sonoridade, da voz da intérprete (Paloma Faith), do clipe. Mas sei que o que diz a letra não é verdade, porque o amor não dói, nem fere.

Você lê isso e instantaneamente brotam em sua memória lembranças sofridas, de relacionamentos passados e talvez até do atual. Quem sabe você lembre da briga que teve na semana passada. Começou como uma discussão boba, mas terminou com seu coração doído. Chorando no chuveiro, com uma sensação de abandono. Ou rolando na cama, tentando entender o que aconteceu. E você pensa que estou falando bobagens e Paloma Faith é que sabe das coisas, porque só o amor consegue machucar desse jeito.

Eu insisto: o amor não machuca. Mas eu jamais disse que relacionamentos não o fariam.

Quando duas pessoas decidem dividir entre si o melhor de si mesmas, é inevitável que tragam também o pior. Mesmo que queira, acima de qualquer coisa, o bem de quem ama, eventualmente você o fará sofrer. E haverá dor para você também.

O que fere, no entanto, não é o amor. É a insegurança. É o ciúme. É a sua dificuldade em lidar com críticas. É a falta de sensibilidade do outro ao fazer uma crítica. É a intolerância. É a impaciência. São os defeitos que trazemos conosco para o relacionamento, e que vêm à tona no exercício da convivência.

O que é o amor, então? E onde ele se esconde enquanto o relacionamento pega fogo?

O amor é a força que move o arrependimento sincero quando percebemos que uma atitude ou palavra nossa causou sofrimento em quem amamos. É a energia que nos envolve motivando o perdão. É o calor do abraço na reconciliação. Essa dor que você sente não é amor. O amor é a cura. É o “bom dia” acompanhado de um sorriso a cada despertar. É dividir a coberta no sofá ao notar que o pé do outro está gelado. É oferecer um carinho, um cuidado, um copo d’água ou o auxílio financeiro de que o outro está precisando naquele momento. É ir ao mercado e lembrar que o cereal dele acabou. É comer só metade do último pãozinho.

O amor pode se revelar, sim, em grandes gestos. Mas ele se manifesta com maior frequência nos detalhes que passam despercebidos na rotina. Durante as turbulências ele aguarda, paciente, pelo momento de fazer sua mágica. Ele não se desgasta tentando brilhar onde não há pessoas dispostas a colocá-lo em prática.

Quando permitimos, porém, o amor nos toma e nos move. Ele nos conduz e nos guia. O amor nos acalenta ao ponto de acreditarmos que aquela discussão boba na semana passada foi a última vez que choramos ou perdemos o sono. Não é verdade. Sofreremos novamente. Feriremos outra vez. Mas não é por mal que o amor nos leva a crer numa ilusão. Ele quer apenas acreditar que seremos melhores.