Quem chora quer o quê?

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Você que tem filho, sabe quando você está muito triste ou frustrado(a) por algum motivo? Talvez tenha perdido o emprego, sofrido uma violência ou uma traição. Talvez tenha se decepcionado com alguém. Ou esteja nas profundezas do puerpério. Não importa a razão. Imagine que, diante da pessoa que você mais confia no mundo, cônjuge, parceiro(a), melhor amigo(a), talvez até sua mãe ou seu pai, você se permite chorar. O que você espera é acolhimento, certo?
 
Imagine então que essa pessoa, em quem você confia tão profundamente a ponto de expor toda a sua vulnerabilidade, reage assim:
 
– ISSO, MOSTRA PRA TODO MUNDO COMO VOCÊ É CHORÃO! OLHA LÁ, TÁ TODO MUNDO VENDO VOCÊ CHORAR!
 
Perceba. Por amor, por favor, não faça isso com seu filho. As razões pelas quais os bebês e as crianças choram podem parecer banais para pessoas maduras, mas são as razões deles! Ninguém no mundo gosta de (e nem merece) ser ridicularizado por seu sofrimento. Não resolve, não ensina a criança a lidar com sua frustração.
 
Eu sei que não é fácil suportar um choro estridente e incessante muitas vezes causado por uma coisa que, para nós, adultos, é absurda. Como o garotinho de um ano e pouco na praça que gritava porque sua mãe não queria deixá-lo se atirar no espelho d’água.
 
Precisamos compreender, porém, que dentro do arcabouço de experiências de uma criança pequena, o que é óbvio para nós, não é para ela. O bebê nem imagina que seja um problema se jogar na água num dia gelado. Não faz ideia da temperatura daquela água, nem da profundidade, tampouco lhe passa pela cabeça que esteja imunda. Não sabe que existem regras sociais que determinam que as pessoas não devem nadar na pracinha. Ele não entende a proibição e fica frustrado.
 
Conheço incontáveis adultos que não sabem lidar com suas próprias frustrações, reagindo de forma absolutamente inadequada a situações em que são contrariados – com impaciência, raiva, intolerância e até violência. Como então esperar uma reação madura de alguém que sequer entende o motivo do “não”, e que conta com vocabulário reduzido para se expressar?
 
A mensagem que se passa a uma criança reagindo ao seu choro com menosprezo é de que é feio e inaceitável expor seus sentimentos. E que é aceitável rir e fazer piada com o sofrimento alheio (já que a pessoa que mais amo no mundo faz isso comigo).
 
Se a criança é um menino, isso tudo costuma vir com uma carga ainda maior no sentido de que “homem não chora”. Gente, por favor. Precisamos no mundo de homens (independentemente de sua orientação sexual) com maturidade emocional. Bem resolvidos com seus sentimentos. Que não sintam sua masculinidade ameaçada por ter lágrimas nos olhos. Homem de verdade chora, SIM. Homem de verdade sente dor, medo, tristeza. Esconder sentimentos não torna ninguém mais homem.
 
Então, pai e mãe, acreditem em mim, eu sei que nem sempre é fácil ser a pessoa adulta na relação, mas sejamos. Há momentos (MUITOS) em que a paciência quase se esgota. Nem sempre é fácil segurar o grito na garganta ou deixar de repetir os padrões da nossa criação. Mas façamos um esforço. Não vamos rir da frustração de nossos pequenos. Não zombemos de sua vulnerabilidade. Acolhamos o sentimento deles. Digamos: “eu sei que você está triste/frustrado por não poder fazer isso. Podemos fazer outra coisa”. Abracemos. Assim, com a autoestima fortalecida, será mais fácil, para eles, lidar com as frustrações no futuro.
 
A propósito, quando a mãe do menino na pracinha disse a ele “olha lá, seu amigo tá vendo como você é chorão’, meu filho de 14 meses se aproximou dele e, sem que ninguém lhe dissesse nada, fez um carinho em sua cabeça. Eu respirei aliviada. Sim, é isso que ele tem aprendido comigo e com o pai dele: quem está chorando precisa de um carinho.
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Suicídio não tem graca, depressão não é piada

Aqui em casa meu filho vai aprender que:

– chinelo serve para calçar;

– cinta serve para segurar as calças;

– a palma da minha mão serve para várias coisas, mas agredi-lo não é uma delas.
Meu filho vai aprender que, não importa o momento da vida que ele esteja passando, ele sempre vai encontrar em mim e no pai dele ouvidos atentos aos seus problemas. Que ele sempre pode contar conosco. Que a colaboração nos afazeres da casa é tarefa de todos que vivem nela, mas que aqui não achamos que depressão e ansiedade são falta de “ter a pia” cheia de louça pra lavar. 
Vocês que estão fazendo piada e compartilhando o “desafio da preguiça azul” ou “desafio da havaiana azul”, insinuando que adolescentes capazes de se automutilar e até se suicidar são desocupados e merecem apanhar, apenas se perguntem se é a vocês que seus filhos recorrerão num momento de dificuldade. Apenas imaginem se, menosprezando os adolescentes e seus conflitos psicológicos (e eventuais transtornos), vocês serão o porto seguro deles. Ou se eles irão buscar apoio em outros adolescentes ainda mais desorientados. Se você acha que esses adolescentes estão só querendo atenção, ué, e quem no mundo não está? Quem não precisa de atenção, amor e cuidado? De onde vem essa ideia deturpada de que, quando alguém pede atenção, devemos virar as costas ou reagir com violência?
Como diz a minha mãe, filho não se perde na rua, mas sim dentro de casa. Perde-se na falta de diálogo, de atenção, de cuidado.
Em vez de ficar compartilhando piada sem graça ou alertando sobre o perigo de as crianças aceitarem balas de estranhos (a grande novidade de 1985), olhemos com atenção para os nossos filhos, para as crianças e jovens do nosso convívio. Sejamos seus confidentes, ofereçamos apoio livre de julgamentos, façamos que saibam que não estão sozinhos. 
A quem precisar de alguém que lhe ouça: EU ESTOU AQUI.
(Esse texto foi originalmente publicado por Oksana Guerra em seu perfil pessoal no Facebook em 19/04/2017, bem como na página Mama Neném em 20/04/2017)

Sobre construir uma relação de confiança 

Muita gente pensa que os bebês não entendem quase nada. Eu já penso que eles entendem quase tudo. Ainda falta a eles a capacidade de se expressar com palavras, mas isso não significa que não compreendam o que se passa a seu redor e o que dizemos a eles.

Já faz alguns meses que o Ivan dorme cedo, e depois que ele adormece eu o deixo na cama sozinho, e vou para a sala ver TV, comer alguma coisa, curtir momentos a sós com o marido. Antes de deixar o bebê, eu sussurro em seu ouvido “mamãe vai para a sala. Se precisar de mim, é só me chamar”. E ao primeiro sinal de que ele acordou, eu corro para o quarto, e já chego dizendo “mamãe está aqui! Você chamou e mamãe já veio”.

Nas primeiras vezes, ele chorava ao acordar e se perceber sozinho no quarto. Com o tempo ele foi notando que eu logo vinha, e parou de chorar: ele apenas me chama, da maneira que consegue. Apenas diz “aah”. E me espera.

Em vez de tentar descer da cama sozinho (o que sempre faz quando eu estou junto com ele no quarto), ele senta na cama, olhando para a porta, e espera eu chegar. E quando eu chego, sorri e bate as mãos nas perninhas fazendo festa. Deito ao seu lado, às vezes ele quer mamar, outras vezes só precisa da minha presença. E adormece novamente.

Sinto que estou construindo a independência do meu bebê da forma que eu julgo correta: com confiança, com carinho, com amor. Ele sabe que estou por perto se ele precisar, e com isso a cada dia ele precisa um pouquinho menos.

Quando é aceitável bater no seu filho?

“Ontem não teve jeito. Tive que dar uns tapas na minha avó. A velha é muito teimosa! Já tentei conversar, expliquei com toda calma do mundo que ela não pode comer doces por causa da diabetes, mas não tem jeito! Sabe o que é ter que repetir a mesma coisa mil vezes todos os dias? Ela faz isso pra me desafiar! Dói mais em mim do que nela, mas de vez em quando ela precisa apanhar pra entender!”

“Meu cachorro fez xixi no tapete da sala. Dei uma surra nele, está encolhido num canto até agora. Vamos ver se ele finalmente entende o significado da palavra ‘não’.”

“Sim, eu bati na minha esposa. Perdi a cabeça mesmo. Mas ela estava pedindo! Eu já cansei de dizer que não quero que ela fique andando sozinha na rua de noite. Já pensou se acontecesse alguma coisa grave? Podia ser assaltada, estuprada, assassinada! Quem sabe agora ela aprende a me escutar.”

“Eu bato no meu filho, sim, senhor! É um absurdo essa história de não poder dar tapa nas crianças! Eles vão crescer sem limites! Eu apanhei muito dos meus pais e por isso sou uma pessoa de bem!”

O que todas essas situações têm em comum? Todas são confissões (fictícias) de crimes. Porém, a última ainda é considerada normal e aplaudida por muita gente. Inclusive psicólogos e psiquiatras, porque diplomas não são garantia de bom senso.

É possível educar sem violência. Não bater é diferente de deixar de ensinar limites. Crianças entendem as coisas, mas aprendem por repetição e, principalmente, pelo exemplo dos pais. Por isso, ter filhos é um convite (que a maior parte das pessoas recusa) à auto-educação. Precisamos estar sempre atentos e vigilantes aos nossos atos, às nossas palavras, aos nossos sentimentos. Precisamos ter autocontrole para não descontar nossa raiva e frustração em forma de castigos físicos, sob o pretexto de educar.

Na dúvida, dê uma passada em qualquer cadeia e pergunte aos presos se eles foram criados com excesso de amor e jamais levaram um tapa, e se foi por isso que terminaram no mundo do crime.

E antes que um inteligente venha dizer “quero só ver se você nunca vai dar uma palmada no seu filho”, eu digo que não posso afirmar com certeza absoluta que jamais vou perder a paciência e dar um tapa nele. O que sei é que, se isso acontecer, vai continuar sendo errado. Se eu cometer um crime, ele não deixa de ser crime. Só o que posso fazer é continuar me educando para poder educá-lo, reconhecendo-o como um ser humano digno do mesmo respeito que eu quero para mim.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra, e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 02/11/2016. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]