Oito meses

Filhote, parabéns por mais um mês de vida. Hoje faz oito meses que você está aqui, nos fazendo mais felizes a cada dia.

Agora você já bate palmas, dá tchau e piscadinhas sedutoras. Explora todos os cantinhos da casa, abre portas, gavetas, travas. Sobe na cama, escala nos móveis, anda sozinho se apoiando neles. Os tombos ainda são frequentes, mas cada vez você aprende melhor o jeito de cair sem se machucar. Experimenta soltar as mãozinhas e fica alguns segundos em pé. Fica de joelhos e de cócoras. É também um bebê dançarino. Ah, e canta muito.

Dá abraço, beija e faz carinho. Mas também dá tapas e mordidas. Já tem 6 dentes, e eles já fizeram mamãe chorar de dor algumas vezes.

É uma delícia ver você brincar com a Samantha, jogando um brinquedo para ela e gargalhando com as reações da gata. Adora jogar bola e engatinhar atrás dela pela casa toda. A máquina de escrever da mamãe é outro brinquedo que faz muito sucesso. Termina o dia com as perninhas e pés encardidos, e faz bastante bagunça na banheira.

Continua aceitando bem novos alimentos, anda tentando usar a colher sozinho para pegar comida e levar à boca, e oferece o que estiver comendo para quem está perto. A primeira vez que fez isso foi no mês passado, quando colocou um brócolis na cara do chefe do papai na festa de fim de ano da empresa. De lá para cá esse altruísmo se intensificou: até os brinquedos babados você quer que a gente também experimente, tira da sua boca e coloca na nossa. Sabe expressar perfeitamente quando quer mais comida (faz um “hummm” nervoso e característico enquanto bate com as mãozinhas na bandeja).

Já faz tempo que balbucia, mas hoje num momento em que me afastei você veio engatinhando atrás de mim e eu e seu papai ouvimos você dizer certinho “mamain”!

Filho, já nem sei mais enumerar suas habilidades. São várias novas toda semana, conquistadas em saltos de desenvolvimento que nos proporcionam noites agitadas e dias cheios de emoção.

Você é um menino lindo, inteligente e muito carinhoso! Seu jeito doce nos faz transbordar de amor. Não há nada mais emocionante que o seu rostinho se iluminando ao me ver! Sua alegria ao ver o papai chegar! Agradeço todos os dias à natureza por ter me abençoado com a graça de ser sua mãe!

Amo você!
Mamain

Texto de autoria de Oksana Guerra, originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook em 21/01/2017. 

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2016: uma retrospectiva para Ivan


Filho amado,

Está chegando ao fim o ano em que você nasceu. 2016 tem muitos críticos, mas não se assuste, meu amor: minha memória é boa o suficiente para lembrar que, no ano passado, quando você morava ainda na minha barriga, muitas pessoas clamavam “acaba logo, 2015”, e o mesmo aconteceu com os anos antecedentes.

E não será diferente com 2017. Eu sei que é estranho, filho, mas as pessoas conservam a crença de que a vida nesse planeta não está difícil por causa delas próprias, mas sim por culpa de uma folha no calendário.

Para mim, essa fatia de tempo que chamamos de 2016 ficará para sempre marcada como o ano em que tudo mudou porque você chegou.

Comecei o ano repleta de expectativas. Seu pai e eu viajamos, saímos muito, registramos em fotografias o crescimento da minha barriga. Ele me acompanhou às consultas médicas, exames e se emocionou sempre que sua imagem apareceu no ultrassom. Choramos juntos de alegria ao ouvir seu coração pela primeira vez.

Passei por momentos estressantes no trabalho. Com você morando em mim e os hormônios trabalhando intensamente, foi mais difícil que nunca ter que tolerar indelicadezas gratuitas. Várias vezes eu me escondia no banheiro para chorar, e achava que não ia suportar até o início da minha licença.

Eu me preparei muito para receber você, mas confesso que romantizei um tanto sua chegada. Cometi o erro de acreditar que, por ter planejado muito, estava tudo sob o meu controle. Mas nada estava. Descobri isso da pior forma, e conheci a maior dor do mundo: ver você sofrer.

Conhecemos de muito perto a maldade humana e o despreparo de uma profissional que jamais deveria trabalhar com pessoas, muito menos com mulheres em trabalho de parto. Fui abandonada, num momento de intensa dificuldade, por pessoas em quem confiei demais. Senti o maior medo que uma mãe pode sentir, o de perder um filho. Enfrentei com você a UTI, o julgamento, a culpa. Suportei dores terríveis para passar horas ao seu lado, sem cansar. Quis morrer cada vez que espetavam uma agulha em você. Tive vontade de tirá-lo da incubadora e correr com você nos braços até a nossa casa.

Os primeiros meses não foram fáceis. O puerpério foi sombrio. Minha confiança estava dilacerada e eu não conseguia ouvir a minha intuição. Tinha muito medo de errar, de falhar de novo com você. Cedi a conselhos equivocados e isso quase nos custou a sua amamentação. Lutei de forma ferrenha, empenhei todos os meus esforços porque eu não ia perder mais essa batalha. Vencemos!

Depois do seu terceiro mês, tudo mudou. A cada dia foi ficando mais fácil. Ou não. Os desafios continuaram, mas eu fiquei mais forte. Reencontrei a confiança perdida. Voltei a olhar no espelho e ver a mulher que você merece como mãe.

E é com muita alegria que tenho acompanhado o seu desenvolvimento. Como digo sempre no seu ouvido: você é muito amado, é lindo, inteligente, esperto, amoroso, carinhoso, corajoso, você é uma pessoa do bem. Traz luz no seu sorriso e paz no seu olhar. Você é especial.

Filho, sou grata a você por ter me ensinado mais sobre o amor nesse ano da sua chegada do que eu aprendi em toda minha vida. Meu amor por você é tão grande que transborda esse eixo mãe-filho: sobra muito para sentir por mim mesma, por seu pai, por sua avó e todos os nossos antepassados. Pelos amigos, pelas mulheres maravilhosas que formam uma rede de apoio fantástica. Sobra amor para dividir com todas as pessoas que estão por aqui desde sempre e com as que entraram em nossa vida nesse ano.

No mundo lá fora aconteceu um montão de coisas ruins. Golpes, guerras, crimes, muita maldade. Em alguns dias temos a impressão de que o mal está vencendo. Mas aqui dentro, graças a você, eu renovo minha fé no bem. Você é uma semente dele, meu amor. Você e seus amiguinhos, crianças amadas que estão sendo criadas de um jeito diferente, com amor e respeito, com potencial para trazer a esse mundo um pouco mais de luz.

Com você por aqui, só posso agradecer por esse ano em nossas vidas, e tenho certeza de que 2017 será um ano ainda mais incrível para nós.

Amo você, filhote!

Mamãe

Sete meses

Filho amado, hoje faz sete meses que você chegou. Mais um mês que vivemos na sua companhia, aprendendo a cada dia com você.

Você já sabe se sentar sozinho quando deixo você deitado. Levantar e ficar em pé com apoio, segurar seu copinho para tomar água e, com um pouco de ajuda, levar a colher com comida à boca. Experimentou muitas frutas, vegetais e ovo.

Faz bagunça na banheira. Já engatinha do seu jeito e quando cansa se arrasta pra onde quer ir. Faz posições dignas de um mestre yogi. Já tem dois dentinhos, o terceiro está nascendo e o quarto já se nota a caminho. Fica o tempo todo com a linguinha sentindo os dentes na gengiva, o que rende carinhas muito engraçadas nas fotos.

Canta para dormir, também tenta cantar junto comigo sua música preferida (continua sendo “O Pato”, de MPB4), brinca com a nossa gatinha, Samantha. Durante o dia, se eu pergunto “cadê o papai?”, você olha para a porta para ver se ele está chegando.

Adora grama e terra. Não dá bola para vídeos por mais de 30 segundos. Está aprendendo a descer da cama sozinho (sem ser de cabeça). Fez sua primeira viagenzinha de carro, conheceu o Papai Noel, viu espetáculo de Natal, foi ao cinema, subiu ao topo de um moinho, foi a vários parques, fez passeios, visitou pessoas e recebeu visitas, teve encontros com amiguinhos, foi a festas, museus.

Filhote, você nos encanta todos os dias com seu jeito carinhoso, seu chamego, seu bom humor. Seu pai e eu continuamos adorando seu bafinho de leite, seu cheirinho de anis estrelado depois da massagem do papai, suas tentativas de beijos que nos cobrem de baba.

Sou grata por mais esse mês de alegria, amor e aprendizado com você, meu anjo.

Amo você mais do que tudo!

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra e foi publicado originalmente em seu perfil pessoal no Facebook em 21/12/2016, às 21h59, enquanto o bebê dormia. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora.]

Seis meses

Meio ano de você na minha vida, filho. Ser mãe é mais um jeito de compreender a teoria da relatividade: esses seis meses passaram muito rápido, parece que, se eu me distrair por um instante, você já não será mais um bebê. E, ao mesmo tempo, quase não consigo mais lembrar como era a vida sem você. Sinto que sou sua mãe desde sempre. Que sua chegada não passou de um reencontro muito esperado.

Seis meses nutrindo você com o meu leite. Hoje parece pouca coisa, e é apenas o começo. Mas houve vários momentos em que pensei que não chegaria tão longe. Agora já estou confiante para dizer: você vai mamar até quando quiser, enquanto continuar bom para nós dois.

 

Já nem sei dizer o tanto de coisa que você aprendeu nesse tempo. Aproveite, meu filho, depois que a gente cresce não é mais tão fácil aprender coisas novas.

 

Agora você já senta sozinho, foge se arrastando, rolando e gargalhando quando digo “eu voooou pegar esse neném”, tenta engatinhar, insiste em ficar de pezinho quando dou a mão para você. Chora dizendo “nhenhenhem” e eu demoro para atender, porque esse choro é tão fofinho. Descobriu o pipi e consegue arrancar a fralda sozinho. Dorme agarrado em mim para eu não poder sair da cama. Faz um beicinho que me corta o coração. Continua tendo o bafinho de leite que eu amo. Começamos ontem sua introdução alimentar e descobri o que já desconfiava: você vai ser bom de garfo. Não faz careta pra nada.

Você, seu pai e eu temos nos divertido muito juntos. Todos os dias são repletos de descobertas, muito carinho, beijos babados e abracinhos gostosos, passeios alegres e muitos motivos para sorrir. Nunca pensei que a vida pudesse ser tão boa. Continuo repetindo: grata por você ter me escolhido!

 

Parabéns pelo seu sexto mesversário, Ivan!

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra, e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 21/11/2016. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]

Cinco meses

Filho, faz cinco meses que você chegou para mudar as nossas vidas de uma forma que nem poderíamos imaginar. Mais um mês que passamos conhecendo você e nos encantando com o seu jeitinho. Você é uma criaturinha linda e abençoada! Sinto-me a pessoa mais sortuda do mundo por ter sido escolhida para ser sua mãe!

Tudo mudou para nós: a rotina, a hora de dormir, as opções de lazer, a alimentação, os planos, a disposição dos móveis e até algumas amizades. E nunca fomos tão felizes!

Amo ver você crescer a cada dia, inventar novas palavrinhas no seu idioma “bebeiês”, se movimentar, rolar, brincar com o pezinho, segurar na minha mão pra ficar de pé. Adoro seu sorriso quando seu papai chega do trabalho! É lindo ver vocês brincando juntos, você se aninhando no colo dele, ele lendo historinha pra você.

Filhote, você agora tem se mostrado ansioso para fazer mais coisas e às vezes se frustra por não conseguir. Se pudesse, aposto que sairia correndo pela casa!

Também me encanta ver como você é carinhoso, adora massagem, cafuné, abraços, beijinhos. Faz carinho em mim enquanto mama. Acho que agora já consegui descobrir todos os pontos em que você sente cócegas! Adoro ouvir sua risadinha!

Fico toda apaixonada quando você acorda pela manhã e pensa que eu ainda estou dormindo (talvez porque eu finjo que estou, hahaha), e você então fica olhando para o teto, fazendo seus barulhinhos, brincando com o lençol, esperando eu acordar… E quando vê que acordei, abre o maior sorrisão!

E para derreter mais meu coração, suas coxas enfim estão gordinhas e seu cabelo cada dia forma mais cachinhos! Parece que é impossível amar mais do que amo você, meu filho, mas todo dia eu me supero e amo mais ainda.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra, e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 21/10/2016. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]

Ele já dorme a noite inteira?

Toda mãe sente uma cobrança muito grande pra que o bebê durma a noite toda. A primeira coisa que todo mundo pergunta sobre o bebê: é bonzinho? A segunda: dorme bem à noite?

Minhas respostas: sim, todo bebê é puro e bom, a não ser o daquela moça do filme que pariu o anticristo, coitada. E, sim, dorme como um bebê!

O que significa dormir como um bebê? A ciência já mostrou que o padrão de sono deles é diferente do nosso. Eles sonham muito mais (o cérebro fica processando todas as informações novas do dia, e TUDO é informação nova), são mais agitados, sentem falta do útero! Existe bebê recém-nascido que dorme a noite toda? Raro, até existe, mas é exceção, e esse bebê não é mais especial que o seu.

Outra coisa MUITO importante: as mamadas noturnas são ótimas para o bebê e também para a mãe! Durante a noite produzimos mais prolactina, e a sucção garante maior produção de leite no dia seguinte. O leite produzido à noite também está repleto de melatonina, hormônio que faz a mãe se sentir mais relaxada mesmo tendo que acordar durante a noite, além de ajudar o bebê a dormir e diferenciar a noite e o dia.

Por fim, há crianças que dormem a noite toda e acabam tendo baixo ganho de peso por passar muitas horas sem mamar. É preciso ter em mente que o estômago do bebê é muito pequeno, e que o leite materno é digerido em cerca de duas horas. O leite artificial, em três. Ou seja, é normal que o bebê acorde querendo mamar durante a noite. Sem contar que, como todo mundo já deve saber, o peito da mãe é muito mais do que alimento! É carinho, proteção, aconchego, segurança! É para o bebê a certeza de que tudo vai ficar bem, num mundo tão repleto de novidades e incertezas!

Além de tudo isso, cada mãe sabe de si e do seu cansaço, e cada bebê tem uma necessidade diferente. Mas pensem bem se vale a pena deixar o bebê chorar para aprender a dormir sozinho, para satisfazer uma ansiedade que talvez nem seja da mãe, mas sim da avó, da tia, da vizinha, que perguntam sempre se o bebê está dormindo a noite toda.

Minha vida mudou quando comecei a cama compartilhada, porque o meu bebê não chora mais à noite, nunca. Acorda algumas vezes procurando o peito, dá umas gemidas, começa a se remexer, e eu já o amamento deitada mesmo, às vezes dormindo, às vezes acordada, às vezes em estado de semivigília. Eu durmo mais, estou mais relaxada, fico tranquila sabendo que o bebê está bem, que está respirando, que está coberto, que está alimentado.

Não quero dizer que as pessoas devem fazer cama compartilhada, sei que há famílias e bebês que não se adaptam, que a OMS não recomenda, que muita gente tem pavor. Meu ponto é apenas: busque encontrar o jeito de vocês, seu e do seu bebê, independentemente da pressão externa. Não existe fórmula mágica, nem receita pronta que funcione pra todo mundo, por mais que exista uma seção enorme nas livrarias querendo convencer você do contrário! Seu bebê não tem nenhum defeito, ele sabe dormir! Só é preciso ter um pouco de paciência em vez de tenta forçá-lo a se adaptar às nossas expectativas em detrimento de suas necessidades fisiológicas e emocionais!

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra, e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 14/09/2016. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]

Três meses

Hoje celebramos mais um mês da sua vida, meu amor! Mais um mês repleto de desafios e de decisões difíceis. Reação a vacina por várias semanas, cólicas, dificuldade para ganhar peso. Muitos conselhos, dicas, médicos, mudança radical na dieta da mamãe.

Hoje já posso dizer que fiz e faço tudo que é possível para garantir seu bem estar, desde o mais básico até o inusitado. Apesar disso tudo, os dias tiveram sempre mais sorrisos do que lágrimas (da sua parte e da minha).

Filho, eu já o amava antes mesmo de você nascer, e, desde o primeiro instante em que o vi, soube que daria minha vida por você. Mas preciso confessar: foi nesse mês que eu me apaixonei perdidamente por você. As nuvens negras do puerpério se dissiparam, embora eu continue sensível, num misto estranho de fragilidade e força. Já consigo enxergar o horizonte, e ele é cheio de cor com você aqui comigo.

Que gostoso é ver seus olhinhos me buscarem, e seu coração se acalmar quando eles me encontram. Que delícia é dormir com você nos meus braços. Que alegria é receber seus sorrisos, suas risadinhas e curtir as nossas conversinhas! Ver você se desenvolvendo, seu pescocinho firme, sua curiosidade, suas mãozinhas cada vez mais hábeis. Você tem sido uma ótima companhia, filhote! Agradeço ao universo pela oportunidade de ser sua mãe, por você ter me escolhido, por estarmos juntos trilhando esse caminho. Parabéns pelo seu terceiro mesversário, Ivan!

Muita saúde e que Deus o abençoe, meu filho amado.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra, e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 21/08/2016. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]

A maternidade não é um sepulcro

Meu puerpério foi muito difícil e pesado. Olhando para trás nem me reconheço naquele – felizmente curto – período. Leio os textos que escrevi e eles não parecem meus. Hoje sinto que muito da tristeza, da falta de confiança em mim mesma e do constante medo de errar que carreguei comigo no pós-parto foram fruto da violência obstétrica que sofri. Some-se a isso as alterações hormonais e as inseguranças normais da maternidade, e o resultado foi uma completa desconexão com minha intuição. Levei alguns meses para começar a ouvir a voz interior que hoje conduz a minha forma de maternar.

Superadas as dificuldades iniciais, ser mãe tem se revelado a cada dia a experiência mais deliciosa, rica e desafiadora da minha vida. Muita coisa mudou, e com certeza a maior parte delas foi para melhor. Abri mão de algumas coisas, mas ganhei muitas outras que nem imaginava.

Vida social, amizades, jantares, viagens, passeios culturais? Eu digo que tudo isso é possível e muito agradável com filhos. O ritmo pode ser diferente, algumas coisas são adaptadas a esse novo membro da família que merece o mesmo respeito que os adultos. Não vou obrigá-lo a dormir num cantinho numa festa, do mesmo modo que eu e o pai dele rejeitaríamos essa sugestão para nós se estivéssemos cansados e alguém insistisse para a gente ficar mais. Não fazemos nada sem estar a fim, e as vontades e necessidades do nosso filho têm o mesmo valor que as nossas (quando não mais).

Isso não quer dizer que não nos divertimos mais, ou que deixamos de fazer tudo que a gente curte. A gente se adapta ao bebê e o bebê se adapta à gente, construímos juntos uma nova rotina, sem apego à vida que levávamos antes da chegada dele, mas sem abandonar totalmente quem éramos. Equilíbrio é a chave.

Mas é muito, MUITO desagradável quando pessoas que pensam diferente – seja porque acham que temos que arrastar o bebê para qualquer programa e que ele “tem que se acostumar”, seja porque acreditam que temos que viver enclausurados – tentam impor sua visão ou ficam agourando nossa alegria.

Eu ouvi muita gente me dizer “aproveite para dormir agora, porque depois nunca mais” (como se fosse possível fazer banco de horas de sono), mas a verdade é que tenho dormido bem, obrigada. Meu bebê ainda mama algumas vezes por noite, em alguns períodos (saltos de desenvolvimento ou picos de crescimento) um pouco mais, mas fazemos cama compartilhada e as mamadas dele não me privam do meu sono. Depois que ele nasceu ouvi que devia aproveitar para sair enquanto ele só mamava, que depois da introdução alimentar era impossível. Hoje me pergunto se essas pessoas nunca viram uma banana. Basta levar uma fruta e água, além do meu peito, e o bebê estará nutrido por horas.

Li algo que a Debora Camargo escreveu e me identifiquei muito: quando as pessoas dizem “aproveite porque depois fica pior”, a impressão que dá é que elas estão torcendo para que a gente se dê mal só para elas provarem um ponto. Só para poderem dizer que não dá mesmo para viajar com crianças, que é impossível levá-las a um museu ou um concerto de música, que você tem SIM que se conformar que ser mãe é só sofrimento e renúncia.

E se você ousar continuar sendo feliz e satisfeita mesmo com filhos, essas pessoas vão dizer que é “sorte”. Ditas por determinadas pessoas, até coisas que todo mundo gosta de ter soam como algo pelo que a gente deveria se desculpar, como sorte, rede de apoio, dinheiro. Não é que você se esforça, planeja, tem um cuidado extra para conciliar o conforto e bem estar do seu filho com a sua alegria de viver e sanidade. É que você tem sorte. Não é que você batalha para realizar seus sonhos e se vira em mil pra dar conta de tudo, é que você tem rede de apoio. Não é que você prioriza viajar em vez de comprar um carro novo, é que você tem muito dinheiro pra torrar em viagens.

A dica é: se você vir alguém fazendo algo que você não imaginava ser possível, inspire-se! Acredite que você também é capaz de muito mais. Não permita que o seu medo se transforme em crítica ao modo de viver das outras pessoas.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra e foi originalmente publicado em seu perfil pessoal no Facebook, em 06/12/2016, às 10h50, enquanto o bebê tirava uma soneca. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]

O ano em que eu fiquei sarada

Filho, quero contar que, por sua causa, passei a respeitar e amar esse corpo que habito. Cultivo hoje um carinho imenso por esse organismo que, ao longo de quase 41 semanas, colheu de minhas veias o melhor de mim para forjar o seu corpinho dentro do meu ventre. Que fabricou com perfeição seus órgãos e tecidos, caprichando nos acabamentos, enquanto conduzia, pelo cordão umbilical, os nutrientes necessários à sua vida e crescimento. E serviu-lhe ainda de abrigo até que estivesse pronto para vir ao mundo e respirar.

Não satisfeito, esse mesmo corpo pariu você – não sem dificuldade, é verdade – e produz até hoje seu alimento. Também não foi sempre fácil a saga da amamentação, mas com perseverança e muita vontade (de nós dois), estabeleceu-se essa relação tão intensa entre nós. E meus seios nunca mais serão olhados por mim sem que eu sinta amor e gratidão por eles.

Minhas pernas e meus braços já estiveram em melhor forma, mas como não perdoar umas celulites aqui e uma flacidez ali? Quando esses braços são a fortaleza que o acolhe e proporciona a segurança de que você necessita? Quando essas pernas sustentam o corpo que o embala, e meus pés caminham com você para onde for? Como não respeitar minha barriga, quando a pele e os músculos dela se distenderam de modo plácido e generoso para que lá dentro você pudesse crescer, seguro e confortável?

Sabe, meu amor, eu nunca gostei muito da minha voz, e me arrepiava de horror ao ouvi-la reproduzida em algum dispositivo de áudio. Mas hoje não posso deixar de simpatizar com os tons produzidos por minhas cordas vocais, pois são eles que instantaneamente acalmam você ao me ouvir.

Considero abençoadas as mãos que o acalentam e os lábios que curam suas dores com um beijo. Os olhos que registram em minha memória os momentos mais doces, que nenhuma lente poderá captar. Os ouvidos que recebem os sons das suas risadinhas, e que também me alertam mesmo de longe quando você precisa de mim.

Nesse ano brotaram em meu rosto novas rugas e marcas de expressão. Ainda no puerpério surgiram duas pequenas linhas verticais entre minhas sobrancelhas, resultantes de um movimento dos músculos usados para chorar. Eles nunca haviam sido utilizados com tamanha frequência em tão pouco tempo. Mas surgiu também um par de marcas ao lado dos lábios, vincos causados pela repetição de sorrisos largos. Essas marcas dizem muito sobre o início da minha jornada como mãe: eu jamais havia sentido com tanta intensidade. Chorei e sorri como nunca antes.

Com o passar das semanas, esse corpo que gerou você foi ajustando a dosagem dos hormônios, e as emoções, embora continuem intensas, já não me fazem chorar tanto assim. Mas os vincos ao lado dos lábios tendem a ficar muito mais profundos, porque você me dá razões para sorrir o tempo todo.

“Sarar” significa curar, dar saúde a quem está doente. Então não tenho dúvidas: a sua chegada me deixou mais sarada do que nunca fui! Curou-me de inseguranças e de cobranças desleais, libertou-me da angústia de não me encaixar em padrões inalcançáveis. Deu-me saúde para enxergar beleza em cada traço meu. E, se faltava algo para me fazer crer que eu sou linda, as pessoas me dizem que você se parece comigo. Prova incontestável da minha beleza é ser a forma que moldou você, a criaturinha mais perfeita sobre a qual meus olhos já repousaram.
Gratidão, filho.

[Esse texto é de autoria de Oksana Guerra e foi publicado originalmente em seu perfil pessoal do Facebook em 26/12/2016 à 0h37, enquanto o bebê dormia. É proibida a reprodução parcial ou total desse texto sem a prévia autorização da autora]